Por Fernanda Simas
A prisão de Fernando Cerimedo no dia 18 de agosto por tentativa de feminicídio contra sua ex-mulher escancara o modus operandi daqueles por trás da nova extrema direita que se fortalece na América Latina e tem potencial para afetar diversos governos na região. Sem cargos oficiais, Cerimedo assessorava o presidente boliviano, Rodrigo Paz, foi estrategista da campanha política do argentino Javier Milei e tinha vínculos com o clã Bolsonaro no Brasil, além de influência em campanhas digitais na Colômbia (com Abelardo de la Espriella) e no Peru (com Keiko Fujimori).
Juntando as peças dos diferentes quebra-cabeças em que Cerimedo está presente, fica claro que, enquanto partidos tradicionais latino-americanos continuam pensando a política país a país, parte dessa nova direita construiu uma rede de estrategistas digitais que cruzam fronteiras replicando a mesma metodologia com base em notícias falsas e que servem de comunicação entre diferentes líderes, tendo como base o norte-americano Donald Trump.

O caso Cerimedo “mostra como agentes políticos que trabalham nos bastidores fazem vários trabalhos sujos”, explica Paulo Ramirez, cientista político e professor da ESPM-SP. “Não só em campanhas de desinformação a favor da extrema direita, mas utilizando sua influência pessoal para favorecer outras formas de crimes”.
Além da tentativa de feminicídio, Cerimedo responde a outros dois processos: enriquecimento ilícito e envolvimento com o narcotráfico.
As acusações
A ex-mulher do operador político Nadia Beller foi vítima de um ataque de dois sicários e levou três tiros em frente a um hotel na Bolívia. No hospital, denunciou que o ex-marido mandou matá-la como queima de arquivo e passou a fazer denúncias contra ele. Cerimedo ficará em prisão preventiva por 180 dias.
No caso de enriquecimento ilícito, mandados contra Cerimedo resultaram na apreensão de cerca de US$ 44 mil e uma “mini fazenda de bots”, ou seja, vários dispositivos eletrônicos unidos por uma rede de software que comenta, compartilha e gera ações nas redes sociais.
No caso de envolvimento com o narcotráfico, Beller afirmou que o ex-marido e pessoas do entorno dele usaram a desculpa da instalação de dispositivos GPS em aviões para controlar algumas operações aéreas e permitir que aeronaves carregadas com drogas sobrevoassem o país.
Por fim – ao menos até agora – Beller disse que sua relação amorosa permitiu que ela visse, de perto, uma rede de corrupção envolvendo o presidente Paz e a família da mulher dele e que Cerimedo recebia uma comissão pelos contratos de gasolina, diesel e ouro que o Estado fechava com empresas privadas. O governo boliviano pede que ela apresente provas das acusações.
“Tenho a impressão que o poder de destruição dessas acusações (contra Cerimedo) é muito grande”, explica o professor Ramirez. “Da mesma forma que o método Cerimedo contribuiu para a ascensão da extrema direita na América Latina, ele mesmo pode levar a um efeito dominó de crises de imagem e popularidade e, quem sabe, institucionais por conta desses supostos envolvimentos.”
Mentiras como estratégia
Cerimedo é um dos fundadores do site “La Derecha Diario”, conhecido na América Latina por fazer parte da estratégia de comunicação de líderes da direita e da extrema direita, criando pontes com o entorno ideológico de Trump e por meio de notícias falsas.
“Em maio de 2023, quando Javier Milei ainda não era presidente da Argentina e poucos apostavam que chegaria à Casa Rosada, me sentei frente ao consultor de comunicação e operador político Fernando Cerimedo. Diante de um gravador, ele admitiu que operava trolls para a campanha libertária, que orquestrava campanhas sujas e muito mais”. Esse é o começo de uma coluna de Hugo Alconada Mon no jornal El País e retrata um pouco o que está por trás da biografia do operador argentino.
A rede de atuação de Cerimedo envolve diversos países. Além de assessorar Milei, o homem que falou abertamente sobre como fabricar conversas políticas, construir exércitos digitais e interferir em algoritmos, também participou da campanha impulsionada pelo ex-presidente Jair Bolsonaro para alegar, falsamente, fraudes nas eleições de 2022.
O impacto que o caso Cerimedo terá em cada país ainda é incerto. Até agora, o impacto tem sido na Bolívia, onde ele foi preso e está sendo processado, e na Argentina, por conta do relacionamento próximo a Milei. Segundo a imprensa argentina, o operador argentino visitou a Casa Rosada ao menos 13 vezes desde 2023, sendo a última visita a Milei em junho de 2024.
No Brasil, o caso pode impactar a campanha de Flávio Bolsonaro, principalmente, como explica Ramirez, pelo discurso que o candidato tenta emplacar no combate ao narcotráfico. Após as recentes eleições na Colômbia e no Peru, surgiram diversas denúncias sobre o uso das estratégias digitais de Cerimedo nas campanhas de De la Espriella e Keiko.
Outra tática que tem sido utilizada por campanhas de extrema direita pelo mundo tem sido descredibiliza jornalistas profissionais e, de certa forma, substituí-los como fonte de informação justamente por influencers digitais que, como vimos no caso Cerimedo, muitas vezes estão a serviço da desinformação ou da propagação de notícias falsas.
Uma matéria do El País mostra como essa operação ocorre nos campos do revisionismo histórico e da guerra cultural.
EUA tentam pressionar Irã com guerra econômica após 6 meses de guerra militar
Quase seis meses depois do início da guerra, os Estados Unidos abriram uma nova frente contra o Irã: a tentativa de isolamento econômico total. O secretário do Tesouro norte-americano, Scott Bessent, anunciou na semana passada a chamada Operação Paria Econômico, que prevê sanções contra empresas, bancos, indivíduos e até governos que continuem facilitando negócios com Teerã.
O governo de Donald Trump justifica a operação com a intenção de cortar todas as fontes de financiamento do regime iraniano depois de meses de ofensiva militar sem conseguir derrubá-lo, reabrir de forma consistente a navegação pelo Estreito de Ormuz ou produzir um acordo diplomático.
A ofensiva financeira mira setores considerados essenciais para a capacidade iraniana de contornar as sanções já impostas, entre eles ativos digitais, tecnologia, ouro, aviação e transporte marítimo. Washington anunciou medidas contra cerca de 60 empresas, indivíduos e embarcações e ameaça excluir do sistema financeiro em dólar qualquer instituição que ajude o Irã a movimentar recursos.
O maior desafio para a estratégia dos EUA é a China, principal parceiro econômico do Irã e maior comprador de seu petróleo. Pequim absorve a maior parte das exportações iranianas por meio de uma rede de intermediários, empresas e bancos que ajudam Teerã a driblar as sanções. Pequim classificou as novas ameaças como ilegais e prometeu proteger seus interesses.
A pressão começa, contudo, a alterar o entorno econômico iraniano. Os Emirados Árabes Unidos, um dos principais parceiros comerciais de Teerã, anunciaram a suspensão de relações financeiras e comerciais. Outros países que mantêm vínculos importantes com a economia iraniana, como Iraque, Turquia, Índia, Paquistão e Afeganistão, também podem ser pressionados a reduzir compras e vendas.
O Irã vive sob sanções há décadas e desenvolveu mecanismos de sobrevivência que incluem substituição de importações, mercados paralelos, criptomoedas e uma “frota fantasma” para transportar petróleo. Ao mesmo tempo, Teerã mantém o Estreito de Ormuz como principal instrumento de pressão e autoridades iranianas voltaram a ameaçar navios que não cumprirem suas regras de navegação.
Meta aceita pagar até US$ 18 bilhões e limitar uso das redes por adolescentes nos EUA
A Meta chegou a um acordo de até US$ 18 bilhões para encerrar ações movidas por procuradores de dezenas de Estados norte-americanos que acusavam Facebook e Instagram de criar mecanismos capazes de gerar dependência entre crianças e adolescentes, coletar dados de menores de forma indevida e minimizar publicamente os riscos das plataformas. O pacto, que precisa de aprovação judicial, encerra em menos de uma semana um dos maiores processos já enfrentados por uma empresa de tecnologia nos Estados Unidos.
Além da indenização, a companhia terá de alterar a experiência oferecida aos adolescentes. O uso das plataformas ficará limitado inicialmente a duas horas por dia, salvo autorização expressa dos pais, e menores não poderão acessar as redes entre meia-noite e seis da manhã sem consentimento. As notificações também serão bloqueadas durante o horário escolar, e crianças deixarão de visualizar contagens de “curtidas” e outras reações. A Meta ainda terá de reforçar filtros contra conteúdos considerados inadequados e ampliar os controles disponíveis às famílias.
Parte do acordo foi desenhada para pressionar TikTok e YouTube. Caso as duas plataformas aceitem adotar restrições semelhantes e contribuam com US$ 5,3 bilhões para a compensação, o limite diário cairá para uma hora e o bloqueio noturno será ampliado das 22h às 7h. Nesse cenário, a Meta arcará com 70% da indenização. Se as concorrentes não aderirem, a empresa de Mark Zuckerberg terá de assumir também os 30% restantes.
O acordo pode representar um marco na discussão sobre a responsabilidade das grandes empresas de tecnologia pela proteção de menores. A maior parte das restrições ficará em vigor por dez anos, enquanto os limites mais rígidos de tempo de uso terão duração inicial de cinco anos.
Ao aceitar o pacto, a Meta evita um julgamento prolongado, possíveis indenizações muito superiores e o depoimento de executivos como Mark Zuckerberg, mas abre espaço para que limites antes tratados como escolhas das próprias plataformas passem a fazer parte de regras impostas judicialmente.
Crise econômica afeta volta às aulas em Cuba, mostra reportagem do ‘El País’
Cerca de 1,4 milhão de estudantes cubanos retornam às aulas no dia 1º de setembro em meio a falta de professores, escassez de uniformes e dificuldades provocadas pela crise econômica, mostra uma reportagem do jornal El País. O governo afirma que apenas 73% das vagas docentes estão preenchidas, o equivalente a pouco mais de 21 mil professores, e parte da carência será coberta por profissionais de outros setores e estudantes universitários.
A situação mais crítica está em Havana, para onde o governo pretende deslocar cerca de 3 mil professores do leste do país. Também foram anunciados mecanismos adicionais de remuneração para docentes que assumirem mais turmas ou trabalharem em diferentes escolas, numa tentativa de compensar os baixos salários corroídos pela inflação.
A crise também aparece nos materiais básicos. Embora livros e cadernos estejam garantidos, a indústria nacional conseguiu produzir apenas cerca de 12% dos uniformes necessários para o ensino primário e uma proporção ainda menor para o secundário. O governo decidiu flexibilizar a exigência do uniforme e atribui a baixa produção aos apagões, à escassez de combustível, à falta de tecidos importados e às dificuldades financeiras.
De acordo com a reportagem, o sistema educacional já vinha sendo afetado diretamente pelo colapso energético. Cuba registrou sete apagões gerais em 2026, além de cortes de energia que chegam a 20 horas por dia em diversas regiões. A crise se agravou com as restrições ao fornecimento de petróleo impostas pelos Estados Unidos desde janeiro, quando realizou uma operação militar na Venezuela e capturou o presidente Nicolás Maduro.
A Unesco já alertou para os riscos do colapso energético sobre a educação cubana, mas o governo afirma que manterá as escolas abertas e adotará regras pedagógicas mais flexíveis para garantir a continuidade do ensino.
Enxurrada deixa centenas de mortos e milhares de desaparecidos no Nepal e no Tibete
Uma devastadora enxurrada atingiu o Nepal e o Tibete na quarta-feira, deixando ao menos 584 mortos e quase 2.500 desaparecidos nos dois lados da fronteira, além de destruir comunidades, estradas e estruturas fronteiriças. A preocupação continua alguns quilômetros rio acima: toneladas de terra, pedras e sedimentos carregadas pela enxurrada bloquearam cursos d’água e formaram uma enorme represa natural que pode se romper nos próximos dias.
A inundação de quarta foi provocada por um enorme deslizamento e atingiu proporções extremas. Segundo as autoridades chinesas, a corrente de água, lama e rochas chegou a alcançar velocidades de 200 quilômetros por hora e formou uma parede de até 15 metros de altura. A força da água destruiu a Ponte da Amizade, que ligava Nepal e China, e soterrou parte das instalações fronteiriças de Gyirong, no Tibete, além de atingir casas, postos policiais e estruturas de imigração e alfândega.
Parte dos escombros acumulados criou um lago a cerca de 2.950 metros de altitude e dez quilômetros acima da fronteira. A barreira natural tem aproximadamente 150 metros de extensão e entre 40 e 50 metros de profundidade e retém mais de 2,5 milhões de metros cúbicos de água, volume equivalente a cerca de mil piscinas olímpicas. O reservatório chegou a transbordar temporariamente na sexta-feira, levando China e Nepal a suspender operações de resgate e retirar equipes e moradores das áreas mais vulneráveis.
O risco permanece elevado porque novas chuvas são esperadas para os próximos dias. O Ministério de Recursos Hídricos da China considera significativa a possibilidade de rompimento da barreira, com o maior fluxo previsto em torno de 1º de setembro. A situação é agravada pela instabilidade das encostas.
Câmeras, drones e modelos tridimensionais estão sendo utilizados para acompanhar a evolução do lago, e autoridades nepalesas orientaram moradores das áreas de risco a buscar terrenos elevados.




