Como o crime organizado evolui mais rápido que governos na América Latina
Grupos se adaptam ao cerco imposto por governos e conseguem acessar tecnologias e melhorias mais rápido do que os Estados
Por Fernanda Simas
Esta semana, o governo brasileiro lançou o Programa Brasil contra o Crime Organizado, uma estratégia de R$ 11,1 bilhões para ampliar as ações em inteligência, sistema prisional e articulação entre esferas de poder - uma resposta à principal preocupação do eleitor. Em outros países da América Latina, alguns também em período eleitoral, a segurança segue em primeiro lugar na lista de preocupações, mas o tema requer abordar a evolução dos grupos criminosos X a evolução do combate ao crime organizado.
“Quando se analisa todos os fenômenos do crime organizado na América Latina, é preciso observar exatamente quais foram as evoluções”, afirma Frédéric Massé, analista político e coordenador da Red de Monitoreo del Crimen Organizado en América Latina (Coral). “Há evoluções nas tecnologias, nas rotas, dos atores, nos produtos”, em contraste com a dificuldade de combate a essa criminalidade, seja por uma questão da dinâmica mais lenta, seja pela falta de recursos.
Implementar um programa eficaz depende de recursos financeiros, coordenação interna - e internacional, já que muitos grupos têm presença em diferentes continentes - e até de fatores geográficos. “É difícil montar operações em regiões remotas dos países, por exemplo, pela maior reatividade e organização dos grupos, frente à lentidão de reação dos Estados”, afirma Massé.
Internamente, a política e a ideologia impedem um melhor trabalho de cooperação, avalia o analista. “A polícia não coopera constantemente com as forças armadas do Exército, com a promotoria. Inclusive, vemos falta de cooperação entre Estados por razões ideológicas”.

A evolução dos grupos criminosos
Enquanto os governos encaram esses desafios, os grupos encontram formas de driblar o cerco. O crime organizado também se sofisticou tecnologicamente, com o crescimento do uso de drones - algo recentemente visto na Colômbia e no México, por exemplo, a partir das lições vindas da Ucrânia -, o manuseio de criptomoedas, além de diferentes mecanismos para transporte de mercadorias e dinheiro.
As rotas do tráfico também mudaram. “Vemos um movimento um pouco circular. Algumas rotas que surgem são novas, mas outras reaparecem, haviam sido um pouco abandonadas, mas, em função de diferentes fatores, ressurgem”, diz Massé.
Olhando o narcotráfico, esse movimento fica mais claro. Os bombardeios do governo de Donald Trump a embarcações no Caribe e no Pacífico deslocaram momentaneamente o tráfico da Venezuela para Guiana, Brasil. Outra mudança é que parte da droga tem saído em contêineres. “Não vão sair bombardeando navios por um contêiner”, resume o analista.
Estudos do Insight Crime, organização que monitora o crime organizado na América Latina, mostram que grupos criminosos estão aproveitando métodos de transporte alternativos para manter o envio da cocaína aos EUA e à Europa. Metade dos países da América Latina registrou mudanças nas rotas em resposta às novas estratégias internacionais iniciadas com Trump.
“Os grupos criminosos têm acesso a tecnologias muito mais rápido do que as autoridades. Vemos isso com a questão das criptomoedas, do uso de drones”, explica Massé.
O portfólio dos grupos criminosos também evoluiu, segundo os estudos. As atividades continuam englobando tráfico de drogas, armas, ouro, pessoas, madeira, entre outros, mas são coordenadas por uma lógica empresarial. São feitos balanços sobre o custo-benefício das ações, que pode variar em função de mudanças geopolíticas e de comportamento de consumo.
“Há anos na Colômbia, os meios de comunicação comentam sobre uma substituição da cocaína pelo ouro, mais rentável. Mas isso ocorre em algumas regiões do país, para grupos específicos”, afirma Massé. “E vale para países como Peru e Equador, onde o narcotráfico não alcança as dimensões observadas na Colômbia”.
A luta contra o crime organizado depende, ainda, da agenda dos países, o que pode prejudicar o diagnóstico e a elaboração de políticas públicas. O foco dado ao contrabando de ouro tem essa influência. A mineração é um tema presente na agenda política dos governos, como ocorreu com as drogas há cerca de 20 anos.
Crime organizado X grupo terrorista
O combate ao crime organizado se tornou mais complexo com a decisão do governo Trump de classificar diversos grupos da América Latina como terroristas. Esse tema tem permeado relações diplomáticas e preocupado governos porque abre brecha para uma intervenção militar americana.
Foi o enredo que antecedeu a captura de Nicolás Maduro na Venezuela pelas forças americanas, é o enredo que assustava o Itamaraty antes das conversas entre Trump e Luiz Inácio Lula da Silva. E é o enredo presente nos discursos do americano referente aos grupos presentes na Colômbia e no México.
O ponto é que existe uma diferença conceitual significativa entre grupo criminoso e grupo terrorista e nomear um grupo criminoso de terrorista pode ser um erro. Organizações terroristas têm um propósito político, se financiam por meio do crime organizado com objetivos políticos.
Os grupos criminosos se estruturam a partir do poder econômico. Podem ter conexões políticas como ocorrem com as máfias, mas por uma questão de conexões que facilitem as práticas criminosas e não como fim.
“Colocar grupos criminosos nessa lista (do terrorismo) com a intenção de ter mais instrumentos para seu combate é algo que não tem comprovação”, afirma Massé.
Mão dura X flexibilização
Considerando, então, o combate ao crime organizado, sem a preocupação das consequências da classificação “terroristas”, surge outra discussão: adotar ou não uma política “mão dura”. Nos últimos anos, o presidente de El Salvador, Nayib Bukele, tem ganhado popularidade e admiradores pela América Latina por sua política de segurança, que levou à queda de homicídios - mas ignora os direitos humanos e o devido processo legal.
“A experiência mostra que se requer uma certa combinação entre mão dura e flexibilidade. O problema é que não há receita mágica e essa proporção depende de cada país”, diz o analista Massé, citando como exemplo a recente política mais dura no Equador.
O presidente Daniel Noboa decretou toques de recolher e estados de exceção desde que chegou ao poder, mas sem conseguir os resultados esperados. “Muitas vezes, as políticas de mão dura não estão acompanhadas de políticas estruturais que mudem as causas desse fenômeno (crime organizado)”, avalia Massé.
O contrário também ocorre na América Latina. A política de negociar sem exercer pressão sobre os grupos criminosos não tem o efeito esperado. O presidente colombiano, Gustavo Petro, chegou ao poder com a promessa de uma “paz total” no país, mas encerra seu mandato sem êxito.
Petro iniciou o governo tentando dialogar com diversos grupos criminosos colombianos, mas alguns interpretaram a situação como “fragilidade do governo” e se fortaleceram ou se consolidaram em diferentes regiões do país. Há cerca de um ano, Bogotá mudou sua política - também em razão da pressão dos Estados Unidos - e passou a adotar certa pressão militar.
Massé explica que a vontade de negociar dos grupos criminosos depende do contexto e das pressões que os levam a sentar numa mesa de negociações. Foi o que ocorreu no acordo de paz entre o governo de Juan Manuel Santos e as Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (Farc) em 2016. “Durante as negociações, estava presente a famosa frase de negociar como se não houvesse conflito e seguir pressionando militarmente como se não houvesse conversas.”
Expansão dos grupos criminosos
Por fim, outro desafio é a expansão internacional do crime organizado. Existe uma tendência de mundialização de qualquer organização criminosa. Foi assim com os cartéis mexicanos e, em certa medida, com cartéis colombianos nos anos 1980. Hoje ocorre com o Tren de Aragua, o PCC e o CV, por exemplo, mas os estudos mostram que essa expansão pode ter um limite.
“Há uma necessidade de alcançar o mercado global, de ter o controle de cadeias de produção desde as regiões de produção até as de consumidores”, afirma Massé. “Agora, a presença de vários grupos fortes torna o domínio e o controle, o monopólio sobre uma região extensa mais difícil. Por isso, vemos uma espécie de colaboração. É a lógica empresarial: se compete por determinado mercado, mas se faz alianças por outros.”
Essa foi a trajetória clássica de carteis importantes, como o de Medellín. Um grande cartel que passa a se dividir em pequenos carteis que, passados anos, começam a formar novos grupos sob um guarda-chuva mais amplo.
A batalha contra o crime organizado é de longo prazo. “Se requer inteligência interna, busca de informação internacional, inteligência tecnológica, humana, capacidades”, conclui Massé.
Um dos países citados no contexto do crescimento ao crime organizado foi a Colômbia, que realiza eleições no dia 31. Enquanto o atual presidente, Gustavo Petro, enfrenta críticas e tenta encontrar justificativas para a falha que foi sua política de Paz Total, os candidatos aproveitam para traçar planos e na área de Segurança.
Um informe divulgado pelo Comitê Internacional da Cruz Vermelha (CICV) nesta semana traz um resultado preocupante: as consequências humanitárias dos conflitos armados alcançaram o nível mais grave em 10 anos
Deixo aqui alguns pontos relevantes para entender esse cenário:
o CICV registrou 965 pessoas feridas ou mortas por explosivos, sendo 198 por minas terrestres, e 308 novos desaparecimentos, sendo 226 de civis;
Ao menos 235.619 pessoas tiveram de se deslocar, um crescimento de 100% em relação a 2024;
Aumentou o uso de explosivos lançados por drones;
Norte de Santander: concentrou 67% da população deslocada em massa;
Cauca: registrou 46% dos feridos ou mortos por explosivos;
As escolas estão entre os alvos civis mais afetados. Algumas sofreram danos durante os enfrentamentos e outras foram utilizadas de forma temporária por atores armados. Nas estradas de acesso a elas, foi registrada a presença de artefatos explosivos. Essas situações afetaram seu funcionamento como espaços de proteção. Além disso, em muitos casos os professores tiveram que abandonar as escolas para proteger suas vidas.
Em 2025, em cinco dos Departamentos (Estados) onde está presente, o CICV documentou 65 casos de desaparecimento de menores de idade relacionados ao recrutamento - a maioria eram adolescentes entre 15 e 17 anos
Em encontro com Trump, Xi dá ultimato sobre situação de Taiwan
Os líderes das duas principais potências mundiais, Estados Unidos e China, se reuniram nesta semana em Pequim para discutir disputas comerciais, tecnológicas e geopolíticas. Em seu primeiro encontro presencial desde 2017, Donald Trump foi recebido por Xi Jinping no Grande Salão do Povo, em uma visita marcada por forte simbolismo diplomático.
Mas o grande tema do encontro foi o alerta de Xi sobre Taiwan, classificado por ele como o ponto mais sensível da relação entre os dois países que pode levar até mesmo a um conflito. A ilha autônoma é considerada por Pequim como parte irrenunciável do território chinês, enquanto os EUA mantêm apoio militar a Taipei.
Diferente das diretas de Xi, Trump adotou um tom conciliador ao longo do encontro e afirmou que a relação entre Washington e Pequim “será melhor do que nunca”. O republicano destacou sua relação pessoal com o líder chinês, a quem chamou de “amigo”.
As conversas também abordaram a guerra no Irã. Segundo a Casa Branca, ambos concordaram sobre a necessidade de manter aberto o estreito de Ormuz e defenderam que o Irã não obtenha armas nucleares. Já o comunicado oficial chinês tratou o tema de forma mais genérica, mencionando apenas discussões sobre Oriente Médio, Ucrânia e Península Coreana.
Primeiro-ministro britânico enfrenta grave crise política
O governo de Keir Starmer entrou em um capítulo complicado da crise política. O secretário de Saúde do Reino Unido, Wes Streeting, renunciou ao cargo na quinta-feira, ampliando as especulações sobre a estabilidade da liderança de Starmer no Partido Trabalhista e, consequentemente, à frente do governo britânico.
Streeting, uma das principais figuras da ala mais à direita do partido, afirmou ter perdido a confiança na condução do premiê. Mas, não chegou a desafiar o posto de Starmer, que enfrenta críticas internas após o péssimo desempenho do Partido Trabalhista nas eleições regionais de 7 de maio, quando a legenda perdeu quase 1,5 mil cadeiras de vereadores.
Streeting renunciou, mas logo o holofote se voltou a outro rival de Starmer. Andy Burnham, popular prefeito da Grande Manchester, anunciou que disputará uma eleição suplementar para conquistar uma cadeira no Parlamento. Se vencer, espera-se que Burnham tente tirar Starmer do comando do número 10 de Downing Street.
Desde a chegada ao poder, a gestão Starmer vem sendo pressionada por dificuldades econômicas, estagnação no crescimento e aumento do custo de vida, além de uma sequência de controvérsias políticas recentes. Na última semana, quatro secretários de Estado deixaram o governo.
Suprema Corte dos EUA decide que pílula abortiva pode continuar sendo prescrita
A Suprema Corte dos Estados Unidos deu uma vitória importante ao movimento em defesa do direito ao aborto ao autorizar que a pílula abortiva mifepristona continue sendo prescrita por telemedicina e enviada às pacientes pelo correio. A decisão foi aprovada por sete dos nove magistrados da Corte, incluindo parte dos juízes conservadores.
A decisão ocorre em meio ao cenário de forte disputa sobre direitos reprodutivos desde que a Suprema Corte derrubou, em 2022, a histórica decisão Roe vs. Wade, que garantia proteção federal ao aborto. Desde então, 13 Estados proibiram totalmente o procedimento, enquanto outros adotaram restrições severas.
Com as limitações estaduais, cresceu o uso da telemedicina e do envio de medicamentos pelo correio para mulheres que vivem em regiões onde o aborto é proibido ou fortemente restrito. Atualmente, cerca de 63% dos abortos realizados no país utilizam medicamentos, e uma parcela significativa ocorre sem consulta médica presencial.
Cuba fica sem reserva de combustível e negocia com EUA
Na quarta-feira, o governo cubano anunciou que havia usado toda a reserva de combustíveis que tinha disponível na ilha e que, portanto, está aberto a qualquer país disposto a vender combustível.
O colapso ocorre em meio ao endurecimento do bloqueio energético imposto pelos Estados Unidos. Desde janeiro, o governo Donald Trump ameaça com sanções e tarifas a qualquer empresa ou país que forneça energia a Cuba. Com isso, a ilha perdeu boa parte do abastecimento vindo da Venezuela e do México, agravando problemas no transporte, hospitais e no fornecimento de eletricidade. Na noite de quarta-feira, moradores de Havana realizaram protestos contra os apagões.
Apesar de Cuba ter ampliado sua capacidade solar com apoio chinês, boa parte da energia gerada se perde devido à precariedade da infraestrutura elétrica e à falta de baterias de armazenamento. Em Havana, os cortes de energia já ultrapassam 20 horas por dia.
Na quinta-feira, o diretor da CIA, John Ratcliffe, chegou a Havana e se reuniu com representantes do Ministério do Interior. É importante ficar de olho no que será negociado. O governo cubano disse que aceitaria ajuda dos EUA, mas a administração Trump deve fazer algumas exigências para isso. Horas antes da chegada de Ratcliffe, Trump havia oferecido US$ 100 milhões à ilha.




