Edição extra: EUA atacam Venezuela, capturam Maduro e abrem precedente perigoso
Invasão americana ocorre 36 anos após operação para derrubar ditador do Panamá e reacende temores passados
Por Fernanda Simas
Trinta e seis anos depois, os Estados Unidos voltam a invadir a América Latina. Neste 3 de janeiro, após meses de escalada militar, as forças armadas americanas atacaram a Venezuela e prenderam Nicolás Maduro. A ação ordenada por Donald Trump torna o futuro do país sul-americano incerto, mas deixa claro que Washington vai atuar para garantir que as Américas permaneçam sob sua esfera de influência e abrem um precedente perigoso.
Na tarde de sábado, Trump afirmou, em uma entrevista coletiva, que Maduro e a mulher seriam mantidos em uma prisão americana até o julgamento, que os EUA governarão a Venezuela até que haja “uma transição segura”, rejeitou a hipótese de deixar María Corina Machado no poder - como muitos imaginavam - e garantiu que enviaria empresas privadas americanas para explorar o petróleo venezuelano.
Diante das declarações e das flagrantes violações ao direito internacional, analistas enxergam um grande risco de a ação americana, que não passou pelo aval do Congresso, servir de incentivo para ações semelhantes por parte de outras potências, como Rússia e China. A esfera de influência russa está sobre a Ucrânia, o Cáucaso, parte da África e do Oriente Médio. A esfera de influência chinesa está sobre a Ásia Central, com movimentos em direção aos continentes africano e americano.
Outra questão importante que despertou preocupações e críticas no sábado é justamente o interesse americano no petróleo venezuelano. A Venezuela contém uma reserva de 303 bilhões de barris de petróleo, o equivalente a 17% das reservas mundiais.
Por esses pontos, a reação de países como Chile, Brasil e a União Europeia foi de crítica, com a cautela de reforçar que tal posição não significa um aval ao regime Maduro e às tantas atrocidades que foram cometidas nos últimos anos no país sul-americano.
Infiltração da CIA
De acordo com o jornal The New York Times, a “Operação Resolução Absoluta”, realizada pela Força Delta para a captura de Maduro, foi treinada por meses. Em agosto, uma equipe de inteligência da CIA se infiltrou no círculo íntimo do presidente venezuelano e descobriu onde ele estava vivendo e como.
Até uma réplica da casa de segurança de Maduro, no forte Tiuna, foi criada para a equipe que capturaria Maduro treinar. A ação de sábado durou menos de um minuto. A equipe de elite do exército americano entrou no forte após o início dos ataques contra diferentes alvos na Venezuela e conseguiu chegar a Maduro e a mulher dele, Cilia Flores, antes dos dois entrarem em um bunker.
Meses antes, a preparação para a ação militar vinha sendo ampliada. Em setembro, forças foram enviadas ao mar do Caribe, em meio a uma campanha de ataques dos EUA contra embarcações que alegavam servir ao narcotráfico. Outros barcos no Pacífico também foram atacados e mais de 115 pessoas foram mortas.
No total, a administração Trump enviou para o Caribe seu maior porta-aviões, o Gerald R. Ford e 15 mil soldados - alguns ficaram em Porto Rico e outros no mar. Essa foi a maior mobilização militar dos EUA na América Latina desde a crise dos mísseis de Cuba, em 1962.
Na operação da madrugada de sábado, quando uma superlua favorecia a visibilidade dos militares, instalações militares foram atacadas nos Estados devMiranda, Aragua, La Guaira e na capital Caracas por duas horas, deixando ao menos 40 mortos entre militares e civis e centenas de feridos. Enquanto isso, parte da energia em Caracas foi cortada conforme a Força Delta se aproximava do alvo onde estava Maduro.
Analistas venezuelanos acreditam, diante da rapidez com que tudo ocorreu, que o próprio chavismo tenha entregado Maduro, mas ainda tentam entender as motivações. É preciso esperar alguns dias para ver as próximas movimentações na Venezuela.
Analistas americanos afirmam que a recompensa oferecida por Washington por informações que levassem à captura de Maduro facilitou a cooptação de infiltrados por parte da CIA.
Prisão e julgamento
Maduro e a mulher foram levados para os EUA no próprio sábado e serão processados por conspiração para praticar narcoterrorismo, conspiração para importar cocaína aos EUA, uso de armas de guerra em narcotráfico e conspiração armada ligada ao narcotráfico. Uma audiência deve ocorrer segunda-feira e o venezuelano deve ser mantido em uma prisão de segurança máxima em Nova York.
Futuro político
A capital Caracas amanheceu sábado num silêncio nunca visto por muitos moradores. As ruas estavam praticamente vazias, quem saiu de casa fez fila em supermercados e farmácias com medo do desabastecimento.
Venezuelanos fora do país comemoraram a queda de Maduro e sentiram esperança de poder voltar ao país sem serem perseguidos. No entanto, a incerteza prevalece e não se sabe como será o futuro político próximo.
Corina Machado comemorou a captura de Maduro e disse que seu movimento estava pronto para tomar o poder. Contudo, na coletiva, Trump deixou claro que a opositora não tem o apoio e o respeito popular para ser a líder venezuelana, jogando um balde de água fria nos planos da oposição e tornando dúvida a certeza que muitos tinham de ver o retorno da democracia com a queda de Maduro.
Após a coletiva, a conta oficial da Casa Branca a rede social X postou um vídeo com um montagem sobre a captura de Maduro.
Na Venezuela, a vice Delcy Rodríguez foi empossada como presidente interina, acusou Washington de agressão militar visando os recursos naturais venezuelanos e prometeu resistir. Diosdado Cabello, outro nome importante do chavismo, foi às ruas e pediu a mobilização em defesa do país.
O secretário de Estado América o afirmou neste domingo, 4, que forças dos EUA permanecerão na América Latina e informou que a Casa Branca está disposta a trabalhar com o atual governo venezuelano, mas sem detalhar o que isso implicaria. Nos próximos dias e semanas muitas coisas ficarão mais claras, mas é certo que o ataque americano contra a Venezuela já mudou o cenário político na América Latina e terá repercussões na região e nas relações de poder entre os países e potências.



