Edição extra: guerra de oportunidade no Irã e o futuro do Oriente Médio
Morte do aiatolá Khamenei embaralha rumos do regime iraniano, mas sua queda ainda depende de outros fatores; bombardeios continuam
Por Fernanda Simas
Os Estados Unidos e Israel realizam ataques contra o Irã desde a madrugada de sábado com uma intenção clara: derrubar o regime dos aiatolás que vigora desde a Revolução Iraniana, em 1979. E nos primeiros bombardeios, ainda na madrugada de sábado, um dos caminhos para isso foi alcançado: a morte do aiatolá Ali Khamenei, que acumulava 37 anos no poder.
Ainda é cedo para saber se o regime de fato vai colapsar no Irã. Analistas acreditam que Khamenei vinha preparando o terreno de sua sucessão depois dos ataques que o país sofreu em junho do ano passado - também vindos de EUA e Israel, mas com o objetivo de minar as ambições nucleares iranianas.
De imediato, acredita-se que o Irã entra num período de transição e o poder do regime iraniano pode ser passado para outro aiatolá linha dura ou até para a Guarda Revolucionária do país. Isso tudo depende, claro, dos rumos dessa guerra nos próximos dias. No próprio sábado, Teerã iniciou retaliações contra Israel e bases americanas pelo Oriente Médio.
Pensar no fim do regime aiatolá exige justamente levar em conta outros fatores, como entender a reação da sociedade iraniana. A oposição está muito enfraquecida e, apesar de centenas de pessoas terem saído às ruas para comemorar a morte de Ali Khamenei, se isso significará alguma espécie de levante ainda é certo para cravar. Fontes iranianas se dividem entre a crítica pelo país estar sendo atacado pelos EUA e pela aprovação, no sentido de que qualquer caminho é válido para livrá-los do regime.
Poder regional
Desde os ataques do Hamas contra Israel em 7 de outubro de 2023, se fala em uma possível reconfiguração das forças no Oriente Médio. Nos meses que se seguiram ao ataque, Israel adotou a tática militar de decapitar as lideranças dos grupos mantidos (financiados e apoiados) por Teerã. Era notório que o próximo na mira israelense era o Irã, seu maior inimigo.
Agora, falar em um novo equilíbrio de forças na região ainda é prematuro. “É necessário tempo para avaliar se mudanças estruturais no equilíbrio regional serão consolidadas”, afirma Filipe Figueiredo, historiador e criador do podcast Xadrez Verbal.
“Além das complexidades locais e das rivalidades sistêmicas e pontuais pela região, trata-se de um conflito que afeta múltiplos atores estatais e não estatais, cujas interações dificilmente se alterarão de forma definitiva em um prazo tão curto”, explica Figueiredo, citando justamente a necessidade de observarmos os comportamentos do aparato estatal iraniano e a reação popular nas ruas.
Por que agora?
Atualmente, o Irã está muito isolado. É difícil imaginar alguma outra nação sair em socorro do regime dos aiatolás neste momento. Os proxies do Irã na região estão enfraquecidos, tanto que Hamas e o Hezbollah libanês permaneciam em silêncio enquanto os ataques americanos e israelenses se intensificaram. O próprio regime sírio de Bashar Assad - que poderia oferecer ajuda a Teerã - já não existe.
Internamente, os protestos no Irã contra o governo vinham crescendo e a resposta brutal do regime dos aiatolás fez aumentar a vontade de mudança do regime. Isso ajudou a criar a janela de oportunidade para Donald Trump.
As razões americanas
Em um vídeo divulgado nas redes sociais, no momento em que os ataques contra o Irã estavam começando, o presidente americano justificou seus ataques com um resumo de mentiras e retomadas de diferentes insatisfações de Washington com Teerã. Mas, internamente nos EUA, Trump também tinha motivos para o ataque.
A popularidade do presidente vem caindo e as críticas por sua política migratória, que passou a resultar na morte de americanos, aumentaram. A economia não vai como Trump esperava. Além disso, após a divulgação de milhares de documentos do caso Epstein, era preciso mudar o foco das notícias e conversas meses antes da eleição de meio de mandato.
Importante ressaltar, no entanto, que diante da ausência de um ataque iminente iraniano, que justificasse a ação militar, ficou claro que Trump, mais uma vez em seu segundo mandato, se envolveu numa guerra por conveniência e não necessidade. Isso infringe as leis do direito internacional.
Questão nuclear
Até 1979, o Irã era um grande aliado dos EUA, chegou a ser mais importante do que Israel nessa relação, tanto que o programa nuclear iraniano foi iniciado em 1970 em parceria com EUA. Após a Revolução Iraniana, os dois países se tornam inimigos e rompem as relações diplomáticas.
Mas, mesmo a justificativa de que os ataques recentes impediriam que o Irã desenvolvesse seu programa nuclear cai quando se avalia que Teerã levaria anos, ou décadas, para recuperar o programa afetado nos ataques do ano passado.
Os bombardeios contra o Irã continuam. Trump falou em ao menos uma semana de ataques ou até que sejam necessários. Teerã prometeu vingança pela morte de Khamenei e segue atacando pontos de Israel e bases americanas no Golfo. Continue acompanhando a Carta Global para mais informações sobre essa guerra.


