Líbano reconfigura a dinâmica da guerra entre EUA e Israel e Irã
Trégua no sul libanês se torna essencial dentro da dinâmica de negociações
Por Fernanda Simas
Em meio a negociações e ameaças entre Estados Unidos e Irã, a situação no Líbano se agrava com mais de 2 mil mortos e 1,2 milhão de deslocados, mas ganha foco na diplomacia internacional e protagonismo nas tratativas para que a guerra se encerre. Uma trégua de 10 dias entre Israel e Líbano levou à abertura do Estreito de Ormuz e pode ser um passo para um acordo mais amplo.
A reabertura do estreito - apesar da insistência de Donald Trump em dizer que o manterá bloqueado - será válida até a próxima quarta-feira, dia 22, segundo o governo iraniano. “Em consonância com o cessar-fogo no Líbano, declaramos totalmente liberada a passagem de todos os navios mercantes pelo Estreito de Ormuz durante o resto do período de trégua, seguindo a rota coordenada e anunciada pela Organização Portuária e Marítima da República Islâmica do Irã”, afirmou na rede X o ministro iraniano de relações exteriores, Abbas Araghchi.
O Irã exigia esse cessar-fogo como parte das negociações com os EUA. O Paquistão - mediador das conversas - incluiu o Líbano na trégua de duas semanas que havia sido acordada entre iranianos e americanos, mas Israel continuou com os bombardeios - tendo o sinal verde de Washington. As forças israelenses avançaram aplicando o “modelo Gaza”, como disseram analistas, destruindo aldeias e infra estruturas e expulsando a população civil ao sul do rio Litani. Centenas de libaneses morreram, inclusive médicos.
A administração Trump precisou ceder diante da pressão internacional e “forçou” o governo de Binyamin Netanyahu a suspender os ataques. Mas isso foi possível, também, por conta do contexto nacional libanês.
“O Líbano tem, pela primeira vez, um governo com algumas intenções semelhantes às de Israel: derrotar e reduzir a influência do Hezbollah sobre o país”, afirma o historiador João Miragaya, especializado em Oriente Médio. “É difícil acreditar que algo vai mudar em um curto espaço de tempo, mas essas conversas podem significar uma transformação para o futuro.”
O Hezbollah acusa o governo libanês de traição por negociar com o inimigo histórico do grupo. Mas Beirute demonstra interesse em desarmar a milícia xiita desde a guerra de 2024 - na esteira dos ataques terroristas do Hamas.
Depois da trégua
Um cessar-fogo exitoso pode levar a discussões mais profundas, como o estabelecimento de uma fronteira definitiva e até o reconhecimento de Israel e o estabelecimento de relações diplomáticas entre os dois países. Esse é um tema que interessa até mesmo a Trump, pelas novas possibilidades de negócios na região.
Israel, por outro lado, deseja inicialmente o desarmamento do Hezbollah, para depois falar em acordo de paz e um futuro reconhecimento do Estado israelense, mas com a condição de que o Líbano deixe de exigir, em troca, o reconhecimento de um Estado palestino. Contudo, desarmar o Hezbollah é uma tarefa que requer diferentes frentes.
Segundo Miragaia, são necessárias duas ações importantes além do desarmamento em si. “O envio de tropas do exército libanês para o sul do Líbano, e um esforço das forças de segurança do país nas regiões xiitas coordenado pelo governo e com o apoio de atores como os EUA e a União Europeia, mas sem Israel; e o impedimento de o Irã rearmar o Hezbollah, por meio de políticas de segurança coordenadas por uma coalizão regional. Se qualquer um destes três pontos não for respeitado, o Hezbollah não será desarmado”, explica o historiador.
Questão palestina
No caso de existir um acordo de paz entre Israel e Líbano antes da criação de um Estado palestino, o Líbano se somaria a países como Egito, Jordânia, Emirados Árabes, Bahrein e Marrocos. Mas o que mudou para essa possibilidade se tornar mais plausível hoje? O que impedia o Líbano de seguir com essa negociação eram o Hezbollah e a influência síria. “A Síria já não exerce mais a mesma influência de outrora no Líbano (desde a queda do regime de Bashar Assad), mas o Hezbollah ainda representa um obstáculo”, diz Miragaia.
De toda forma, o historiador acredita que a guerra em Gaza tenha trazido o debate sobre a criação de um Estado palestino de volta à pauta após ter ficado perdida nas tratativas de países árabes com Israel no contexto dos Acordos de Abraão - durante o primeiro mandato de Trump. E é justamente o ponto sobre o Estado palestino que pode prejudicar o governo Netanyahu.
“A intransigência israelense, por vezes ideológica, de reconhecer a legitimidade e possibilitar a criação de um Estado palestino, afasta o país de acordos com os países de maioria muçulmana, impede uma coalizão anti-Irã e motiva as populações muçulmanas a apoiar a luta do eixo de resistência contra Israel”, afirma Miragaia. “O regime (iraniano) dos aiatolás encontra apoio justamente na impopularidade de Israel no mundo islâmico, que vem aumentando substancialmente nos últimos 3 anos.”
Se esse enredo seguir da mesma forma, o Irã tampouco deixará de representar uma ameaça para Israel e Netanyahu não terá como argumentar que venceu a guerra - no momento em que sua popularidade cai, e ele perderia o poder em eleições imediatas. “O governo israelense não traçou um caminho político para dar sequência aos possíveis ganhos militares dessas ações. É possível que, como efeito-cascata do enorme prejuízo causado pela guerra ao Irã, a médio/longo prazo o regime sucumba e leve o Hezbollah consigo. Mas este cenário não tende a acontecer a curto prazo, e tampouco foi planejado para que assim seja”, diz o historiador.
O cessar-fogo de 10 dias foi acordado entre os governos israelense e libanês, sem a participação do Hezbollah, e Netanyahu enfatizou que manterá as tropas israelenses em uma zona de até 10 quilômetros do sul do Líbano. Ainda é cedo para saber se a trégua será cumprida e qual rumo a situação tomará, mas o Líbano não pode ser considerado apenas um efeito colateral deste conflito no Oriente Médio.
A guerra dos EUA no Irã tem lembrado muitas pessoas, principalmente analistas americanos, da guerra dos EUA no Iraque, um conflito que durou anos e teve repercussões por mais muitos anos, mesmo após as lideranças americanas declararem vitória. Este episódio do podcast Today Explained traz um pouco do contexto da guerra no Iraque, os motivos de ela ter sido um desastre e os paralelos com a atual guerra no Irã.
Orbán é derrotado na Hungria e deixará o poder após 16 anos
A Hungria encerrou a era de Viktor Orbán após 16 anos no poder, com a vitória expressiva do opositor Péter Magyar nas eleições legislativas do domingo. Com ampla vantagem em votos e cadeiras no Parlamento, Magyar consolidou uma virada histórica, impulsionada por alta participação popular e por um forte desejo de mudança na sociedade húngara.
A derrota de Orbán tem impacto além das fronteiras. Considerado um dos principais líderes da ultradireita na Europa, o premiê vinha tensionando relações com a União Europeia ao bloquear decisões estratégicas e aproximar o país da Rússia. Sua saída do poder é considerada um reposicionamento relevante dentro do bloco europeu e pode destravar agendas políticas e econômicas.
Magyar, ex-integrante do próprio sistema político de Orbán e um político tido como de centro-direita, assume com o desafio de reconstruir instituições, recuperar a credibilidade internacional e enfrentar uma situação fiscal delicada. Sua base eleitoral heterogênea — que reúne diferentes correntes políticas — será decisiva para sustentar as reformas prometidas.
O novo premiê prometeu a saída de fantoches do Orbán do governo, a refundação da mídia estatal, uma reforma constitucional para limitar o número de mandatos do primeiro-ministro a dois e o desbloqueio de fundos na UE.
Keiko Fujimori deve disputar presidência com o esquerdista Roberto Sánchez no Peru
Depois de votações conturbadas que se estenderam até a segunda-feira no Peru, ainda não está claro quem disputará o segundo turno contra Keiko Fujimori, com a apuração lenta e contestada mantendo o país em suspenso. A disputa pelo segundo lugar se transformou em uma corrida apertada voto a voto, refletindo um ambiente de polarização crescente.
O ultraconservador Rafael López Aliaga chegou a ocupar a segunda posição, mas perdeu terreno para o representante da extrema esquerda Roberto Sánchez, que avançou impulsionado pelo voto rural. Nos últimos dias, no entanto, a diferença entre ambos caiu para poucos milhares de votos.
Na quinta-feira, López Aliaga, já na terceira posição, falou em fraude eleitoral e ofereceu uma “recompensa” de 20 mil soles (cerca de R$ 29 mil) a “trabalhadores da ONPE, JNE ou empresa vinculada ao processo eleitoral” que tivessem “informações comprováveis sobre possíveis irregularidades, fraude ou sabotagem”. Horas depois, apagou a mensagem.
Organismos como a União Europeia e autoridades locais afirmam não haver indícios de fraude e analistas peruanos afirmam que o país corre o risco de cair numa espécie de autoritarismo legislativo.
A confusão eleitoral começou ainda no domingo da votação, com o atraso da entrega das cédulas. Ao fim do dia, haviam sido instaladas 99,8% das mesas de votação, o que não é algo excepcional, mas a diferença é que desta vez três distritos de Lima ficaram sem receber as mesas. Com isso, cerca de 63 mil votos deixaram de ser depositados nas urnas, o que levou López Aliaga, ex-prefeito de Lima, a começar a ventilar a ideia de fraude eleitoral.
Ficou decidido, então, pelos órgãos eleitorais, que aqueles que não haviam conseguido votar no domingo iriam às urnas na segunda-feira. No início da apuração, os resultados mostravam Keiko e Aliaga no segundo turno, mas com a contagem dos votos rurais e do sul do país, onde a ditadura de Alberto Fujimori agiu fortemente, Sánchez passou ao segundo lugar.
Se confirmado, esse cenário repete as recentes disputas presidenciais peruanas entre os dois extremos do espectro político..
A escalada da tensão entre o Vaticano e a Casa Branca
Quase um ano após sua eleição, o papa Leão XIV se torna, agora, figura central no debate político internacional, principalmente por conta dos recentes embates com o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump. Inicialmente discreto, o pontífice passou a adotar uma postura mais firme diante de temas como guerra, imigração e direito internacional.
Sem mencionar diretamente o presidente americano, Leão XIV tem feito críticas recorrentes ao uso político da religião e à retórica bélica, defendendo o multilateralismo e princípios humanitários. A escalada de tensão entre o Vaticano e a Casa Branca piorou após as falas de Trump e uma publicação se colocando na figura de Cristo. O papa insistiu que suas falas têm como base o Evangelho e que continuará pregando por um mundo de paz.
O confronto tem influenciado debates políticos na Europa e nos EUA, especialmente entre eleitores e lideranças conservadoras. Ao tensionar a fronteira entre poder político e autoridade moral, o embate coloca a Igreja Católica no centro das discussões e expõe divisões dentro do próprio campo conservador.
Lembrando que a diplomacia papal sempre foi algo inerente ao cargo do líder da Igreja Católica. O papa Francisco, por exemplo, foi essencial nas negociações de paz realizadas na Colômbia entre o governo de Juan Manuel Santos e as Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (Farc).
Rússia encerra cessar-fogo de Páscoa e ataques matam 18 na Ucrânia
Após semanas de relativa calma, a guerra na Ucrânia voltou a escalar com uma onda de ataques russos de longo alcance que deixaram ao menos 18 mortos em Kiev, além de vítimas em Odessa e Dnipro. A ofensiva rompeu o breve cessar-fogo da Páscoa ortodoxa, que havia reduzido temporariamente os bombardeios fora das linhas de frente.
Em 24 horas, a Rússia lançou dezenas de mísseis e centenas de drones, em uma das maiores ofensivas recentes contra os ucranianos. Embora a defesa aérea ucraniana tenha interceptado a maioria dos drones, a taxa de sucesso contra mísseis balísticos foi significativamente menor, evidenciando uma vulnerabilidade crítica. Autoridades militares reconhecem que a contenção desse tipo de armamento depende diretamente do reforço de sistemas avançados fornecidos por aliados ocidentais.
O presidente ucraniano, Volodmir Zelenski, alertou para a escassez de munição em sistemas como o Patriot, cuja produção estaria sendo direcionada a outros conflitos, como no Oriente Médio. Ao mesmo tempo, a Rússia amplia o uso de drones mais sofisticados e difíceis de interceptar, indicando uma adaptação tática que reforça o risco de uma nova escalada no conflito.
FMI retoma relações com a Venezuela após sete anos
A Venezuela vive mais uma mudança e continua tentando conquistar a confiança internacional. O Fundo Monetário Internacional (FMI) retomou relações com o país após sete anos de suspensão, e recebeu o respaldo da maioria dos países-membros.
A medida marca uma mudança relevante no isolamento diplomático da Venezuela que se intensificou desde 2019 e pode ser mais um motivo de respiro para a presidente Delcy Rodríguez, que enfrenta manifestações populares por conta da situação da economia e pressão da oposição para realizar eleições.
A reaproximação com o FMI abre caminho para eventual assistência financeira e para a retomada do monitoramento econômico por parte do Fundo — passo essencial para qualquer processo de reestruturação da dívida ou recuperação macroeconômica da Venezuela.
A decisão também ocorre em paralelo ao relaxamento de sanções por parte dos Estados Unidos e ao restabelecimento de vínculos com outras instituições multilaterais, como o Banco Mundial.
O movimento sinaliza uma tentativa de normalização institucional e recuperação da credibilidade internacional. Ainda assim, o acesso efetivo a recursos dependerá de avanços na transparência econômica e na estabilidade política, enquanto o país busca reconstruir suas bases financeiras e reposicionar-se no sistema global.
Reunião progressista na Espanha
O primeiro-ministro da Espanha, Pedro Sánchez, tenta se consolidar como uma das principais vozes progressistas, após ter sua atuação em temas como Gaza, gastos militares e o conflito com o Irã enaltecida como enfrentamento ao avanço da direita no Ocidente.
Como parte dessa estratégia, Sánchez organiza em Barcelona um encontro internacional de líderes progressistas, reunindo representantes de países da Europa, América Latina e outras regiões. Entre os presentes, estão o presidente do Brasil, Luiz Inácio Lula da Silva, a mexicana Claudia Sheinbaum e o colombiano Gustavo Petro.
O encontro busca articular uma agenda comum em defesa do multilateralismo, das instituições democráticas e contra a desinformação e o extremismo.
Na próxima semana, a Carta traz os principais pontos desse evento.






