Por Fernanda Simas
Tradicionalmente, o presidente chinês, Xi Jinping, não vai à Assembleia-Geral da ONU. Este ano, ele estava em Nova York enquanto o evento que reúne líderes do mundo todo estava acontecendo, mesmo assim não foi. Esse retrato consolida a ruptura da ordem internacional pós-Guerra Fria, enquanto do lado de dentro da ONU, discursos fortemente ideológicos eram proferidos por líderes com dificuldades de se adaptar a essa ruptura.
“Todos identificam os problemas, as crises que nós estamos vivendo. Alguns até falam de uma nova lógica internacional, mas na hora de propor soluções, propõem as mesmas soluções desse período que acabou”, explica o professor de Relações Internacionais da ESPM Gunther Rudzit, especialista em Segurança.
No pós-Guerra Fria, ainda imperava uma lógica militar econômica, muito se apostou na globalização. Os órgãos multilaterais funcionavam como grandes fóruns internacionais, onde líderes apresentaram suas visões para problemas internos, mas também conflitos externos.
Esses espaços agora funcionam como palco para discursos fortemente voltados a justificativas internas, como parte de um sistema mais nacionalista onde cada um pensa em seus interesses e não há consequências internacionais. “O primeiro-ministro do Canadá (Mark Carney) deixou isso claro em janeiro. As pessoas não prestaram atenção suficiente na nova estratégia de Segurança dos Estados Unidos publicada no ano passado”, afirma Rudzit. “(Donald) Trump deixa claro, os EUA cansaram de ser a polícia do mundo.
A gente esquece que (Vladimir) Putin invadiu a Ucrânia em 2022, esquece que a China está desrespeitando a convicção dos mares, anexando e criando ilhas no mar do sul da China. Trump sequestrou (Nicolás) Maduro, matou a liderança iraniana.”
A Assembleia-Geral da ONU se tornou mais um momento sem propostas concretas, enquanto os interesses individuais se sobrepõem aos interesses coletivos. Rudzit, Ian Bremmer e diversos outros analistas afirmam que passamos a viver sob a lei da selva, onde o mais forte sobrevive. Xi Jinping já usou essa expressão.
“Xi Jinping já entendeu essa realidade. Fico um pouco inconformado de ver várias outras lideranças fazerem discursos sem entender direito essa mudança. Continuam batendo na mesma tecla como se uma reforma aos moldes do que foi criado em 1945 pudesse solucionar algum desses problemas atuais”, avalia Rudzit.
Para ele, olhando para a situação brasileira, é preciso avaliar que o Itamaraty tem uma visão de mundo multilateral, da adoção de resoluções pacíficas para controvérsias, “que foi muito bem sucedida em termos de política externa pro Brasil. Então, abandonar essa visão de mundo para entender outra é muito custoso.”
Outros países latino-americanos, esses governados pela extrema direita, apresentaram discursos nos debates gerais mais alinhados à visão da administração Trump não apenas para seguir um script, mas por realmente concordarem que os interesses individuais têm de se sobrepor aos coletivos, principalmente em órgãos multilaterais que, acreditam, não têm função no mundo atual.
“Países que têm um certo peso estratégico, como o Brasil, podem tentar administrar as suas dependências. Tanto em relação aos EUA quanto à China. Agora, países sem peso específico e que estão nesse hemisfério (ocidental), como Equador, que está sofrendo a ameaça do narcotráfico e não tem capacidade de combatê-lo sozinho, vão apoiar as iniciativas do Trump”, explica Rudzit questionado sobre como defender os interesses nacionais e, ao mesmo tempo, abrir as portas para uma presença militar estrangeira.
Analistas acreditam que a tendência a curto prazo é que os conflitos regionais aumentem, enquanto o Conselho de Segurança da ONU e outros órgãos multilaterais sofrem para aprovar alguma medida combativa em meio a mudanças da lógica internacional que continuam em curso.
No site dos debates gerais da Assembleia-Geral da ONU é possível encontrar todos os discursos feitos na semana passada, com legenda e em diferentes idiomas. É uma ótima forma de entender o pensamento político e os planos de governo de cada Estado.
Em Porto Rico, moradores de Vieques dividem espaço com os cavalos
Por: Jenny Carolina González
Vieques, Porto Rico - Dividir uma praia paradisíaca à beira-mar com cavalos soltos não é uma cena que existe apenas nos filmes. É uma realidade em Vieques, uma pequena ilha de Porto Rico onde os equinos são uma de suas maiores atrações.
Localizada a duas horas de San Juan, capital do país, depois de um trajeto de carro e outro de balsa, Vieques, com cerca de 8 mil habitantes, tem mais de 3 mil equinos, uma média de 2,6 habitantes para cada animal.
Os cavalos representam uma oportunidade para as atividades turísticas da ilha, mas, ao mesmo tempo, são um problema para seus moradores e para as autoridades, que há anos tentam diferentes soluções para controlar sua reprodução e proliferação.
“Um dos aspectos positivos é o reconhecimento de Vieques como uma ilha natural, onde eles vivem livremente, mas a realidade é que ter cavalos nas ruas é um problema sério”, afirmou o prefeito da ilha, José A. Corcino.
Os equinos estão por toda parte: pastando na praça principal e às margens da estrada principal, procurando comida entre os turistas, buscando água nos chuveiros próximos à praia, revirando lixeiras e entrando nos jardins para comer a vegetação e procurar água. Além disso, provocam acidentes de trânsito e contribuem para a proliferação de carrapatos.
“Eles representam um problema de saúde pública porque têm doenças zoonóticas, que são transmitidas dos animais para os seres humanos, como as transmitidas por carrapatos. As pessoas vêm para cá como se isso fosse uma fantasia, um sonho, e não é assim. Eles não são agressivos, mas podem machucar”, disse Dante Díaz, de 26 anos, que conhece de perto o problema por trabalhar em abrigos para cavalos.
A grande população de equinos não era tão visível até a Marinha dos Estados Unidos deixar a ilha, no início dos anos 2000, depois de utilizar suas praias durante décadas para exercícios militares. Foi então que as cercas construídas foram desmontadas e os cavalos passaram a circular livremente, misturaram-se a outros domesticados e começaram a percorrer as ruas.
“Isso vem acontecendo há anos. Eles se reproduzem anualmente e as manadas cresceram. É um problema de 50 anos, não surgiu de ontem para hoje”, afirmou o prefeito Corcino.
Erika Boulogne, moradora de 46 anos e proprietária de um restaurante próximo a uma das praias, conta que a forma de cuidar desses animais mudou com o passar do tempo. Na geração dela, cada proprietário se responsabilizava por seu animal.
“Todos os cavalos têm dono, embora pareçam viver soltos. Não são selvagens, têm seus proprietários, e eles sabem onde os animais estão. Quando querem usá-los, vão buscá-los. Obviamente, quando acontece um acidente, o proprietário nunca aparece, porque teria que assumir a responsabilidade.”
Os proprietários de cavalos apontam uma realidade da ilha: muitos não têm terras e os custos de manutenção dos equinos são altos. Johnny Colón tem 40 anos e cria cavalos desde criança. Atualmente, organiza passeios a cavalo para turistas e administra um programa de equitação para crianças.
“Como você vai manter seu cavalo dentro de uma propriedade se não tem dinheiro? É preciso construir uma estrutura para protegê-lo do sol, e um cavalo confinado precisa receber regularmente medicamentos contra parasitas, ferraduras, além dos cuidados veterinários... É muito dinheiro, e há muitas famílias que simplesmente não têm condições”, afirmou Colón.
No fim do ano passado, o Senado de Porto Rico aprovou um projeto para estabelecer um marco legal para enfrentar o problema. A legislação autoriza o Departamento de Transportes e Obras Públicas, os municípios e o Escritório Estadual de Controle de Animais a intervir e recolher equinos que representem perigo para a segurança viária, além de criar um processo estruturado para sua identificação, reivindicação pelos proprietários e eventual leilão público.
Para o prefeito Corcino, “o principal é educar a população. Acredito que 90% concordam com o recolhimento dos cavalos, mas também queremos dar a oportunidade aos jovens que têm esses animais para que assumam a responsabilidade por eles”.
Boulogne destaca a inteligência dos equinos e lamenta que estejam desassistidos, sem água, comida ou atendimento veterinário. Perto de seu restaurante, ela já viu éguas dando à luz e também encontrou animais doentes e mortos.
Os cavalos fazem parte da vida cotidiana de Vieques e são uma atração turística difícil de encontrar em outras partes do Caribe. “Foi emocionante ver como eles se aproximavam de mim para beber água enquanto eu me banhava depois de sair da praia. São imponentes e intimidam um pouco quando estão tão perto, mas são inofensivos”, disse Sofía González, uma turista colombiana.
Grandes veículos dos EUA se unem contra veto de Trump a jornalistas na Casa Branca
Alguns dos principais veículos de comunicação dos Estados Unidos se uniram em defesa da liberdade de imprensa após o presidente Donald Trump proibir jornalistas da CNN, MS NOW e Politico de acessar a Casa Branca. Associated Press, Bloomberg, The New York Times, Reuters, The Wall Street Journal, The Washington Post e outros veículos assinaram uma declaração organizada pelo Comitê para a Proteção dos Jornalistas (CPJ) que classifica a medida como um precedente perigoso.
Trump anunciou o veto na semana passada, acusando os três veículos de produzirem “notícias falsas”, e as credenciais dos profissionais foram retiradas no dia seguinte. CNN, MS NOW e Politico responderam com uma ação judicial contra o governo, argumentando que a punição viola a Primeira Emenda da Constituição e permite que o presidente interfira em quem pode cobrir suas atividades.
A reação se estendeu às principais redes de televisão: CBS, NBC, ABC e Fox News recusaram-se a substituir a CNN no sistema de cobertura compartilhada da Casa Branca durante a viagem de Trump a Nova York para a Assembleia-Geral da ONU. O presidente afirma que respeita a liberdade de imprensa e sua ofensiva é dirigida ao que chama de “notícias falsas”.
O episódio amplia um confronto que acompanha Trump desde seu retorno à Casa Branca. O governo havia restringido o acesso da Associated Press depois que a agência se recusou a adotar a denominação “Golfo da América” no lugar de Golfo do México.
OMS estabelece pela primeira vez diretrizes para anticoncepcionais masculinos
A Organização Mundial da Saúde (OMS) publicou pela primeira vez um documento com parâmetros para orientar o desenvolvimento de anticoncepcionais masculinos, em uma tentativa de ampliar as opções hoje praticamente restritas ao preservativo e à vasectomia. As diretrizes estabelecem que os novos métodos devem ser seguros, reversíveis, acessíveis e apresentar eficácia mínima entre 90% e 93%.
A organização defende que aumentar as alternativas para os homens ajudaria a dividir a responsabilidade pelo planejamento familiar e reduziria a carga da contracepção hormonal que hoje recai de maneira desproporcional sobre as mulheres.
Entre as possibilidades em desenvolvimento estão pílulas, injeções, géis e implantes capazes de interromper a produção, o funcionamento ou o transporte dos espermatozoides. Algumas das primeiras alternativas poderiam chegar ao mercado em cerca de cinco anos, segundo a Iniciativa de Anticoncepção Masculina, embora as pesquisas nessa área já ocorram há mais de meio século e enfrentem dificuldades de financiamento.
A OMS sustenta que existe demanda para esses produtos. Uma pesquisa realizada em Gana, Togo, Marrocos e Colômbia mostrou que mais de 75% dos casais estariam dispostos a experimentar métodos contraceptivos masculinos, enquanto 85% das mulheres disseram confiar que seus parceiros assumissem essa responsabilidade. Para a organização, ampliar o acesso à contracepção também é uma questão de saúde pública: 48% das gestações no mundo não são planejadas ou desejadas e, entre elas, 60% terminam em aborto.
Xi e Trump encerram cúpula com poucos acordos e promessa de novos encontros
Donald Trump e Xi Jinping encerraram a primeira visita do presidente chinês a Washington em 11 anos com poucos avanços concretos e uma demonstração pública de aproximação entre as duas maiores potências mundiais. Trump recebeu Xi com um protocolo excepcional e afirmou que os dois fizeram “grandes avanços”, embora a Casa Branca não tivesse divulgado nenhum acordo relevante alcançado durante os dois dias de reuniões. Os presidentes já combinaram novos encontros: em novembro, durante a cúpula da APEC na China, e em dezembro, no G-20 de Miami.
A visita também expôs diferenças na maneira como os dois líderes encaram a relação. Trump concentrou suas declarações na relação pessoal e no respeito que diz manter por Xi, enquanto o presidente chinês insistiu na construção de uma “estabilidade estratégica” com base em respeito, equidade e justiça. Entre os principais temas discutidos estiveram comércio, inteligência artificial, a guerra no Irã e, sobretudo, Taiwan.
Xi reiterou que a integridade territorial chinesa é uma linha vermelha e pediu que Washington se oponha à independência da ilha. A questão continua sendo um dos pontos mais delicados da relação: os EUA mantêm sua política de ambiguidade estratégica e estão legalmente comprometidos a fornecer meios para que Taiwan possa se defender.
Os dois também discutiram a corrida pela inteligência artificial, em meio ao debate internacional sobre possíveis limites ao desenvolvimento da tecnologia. Xi afirmou que China e EUA têm a responsabilidade de garantir que a IA permaneça sob controle humano, enquanto Trump voltou a defender que não sejam impostos obstáculos ao avanço do setor.
Sobre a guerra no Irã, Washington afirmou ter deixado claro a Pequim que considera inaceitável qualquer auxílio militar ou de inteligência a Teerã. Assim, apesar do tom amistoso e da promessa de manter o diálogo, a cúpula terminou sem resolver as principais disputas entre Washington e Pequim.







