Terremotos na Venezuela: o drama de um morador de La Guaira
Venezuelano conta como recebeu o alerta dos tremores e os esforços da população para ajudar os afetados
Por Fernanda Simas
Era cerca de 18 horas de uma quarta-feira comum e José Avilez, 40 anos, estava trabalhando em seu quarto na casa dos pais em La Guaira. “Recebi uma notificação em meu celular Android, era um alarme dizendo que iria começar, em breve, um terremoto. Fiquei impressionado, confuso, mas corri para buscar meus pais no quarto deles. Minha mãe tem 71 anos e problemas nos ossos, então não podia correr”, contou Avilez à Carta Global dois dias depois da tragédia, na qual ele perdeu uma prima e um amigo próximo.
Na noite da quarta-feira 24, a Venezuela sofreu dois terremotos, de magnitudes 7,2 e 7,5 graus na escala Richter - os mais fortes registrados no país desde 1990. Até este domingo pela tarde, 1.430 pessoas foram encontradas mortas, 3.238 feridas e mais de 50 mil estavam desaparecidas, segundo a ONU.
“Tentei levá-los para a entrada, para ficarmos embaixo do batente da porta. A casa deles fica na base de uma montanha, parecido às favelas brasileiras, e meu medo era que houvesse um desmoronamento. Quando estávamos quase chegando começaram os zumbidos fortes do terremoto. Foram momentos muito difíceis. Abracei a minha mãe forte para ela não cair com os tremores. Meu pai tem 68 anos, é mais forte, mas naquele momento também estava vulnerável. Percebi que tinha de ser o pilar mais forte para mantê-los em calma”, explicou Avilez.
A região de La Guaira - onde muitos passam férias de frente ao mar do Caribe - fica a cerca de 40 minutos de Caracas e foi a mais afetada pelos terremotos. Diferente do Chile, que está acostumado com os sismos, a Venezuela não tem o mesmo preparo ou estrutura de resposta. Além disso, vem passando por um colapso econômico e político há anos.
“Um muro caiu e os pedaços quase nos impediram, mas ao final conseguimos sair da casa. Fomos para a rua buscar um lugar seguro já que começaram diversas réplicas. Com a chuva houve mais confusão. Nós, venezuelanos, não temos uma cultura de sismos, nosso único alarme foi esse do Google com os Androids, o que salvou muitas vidas”, lembrou o venezuelano.
Depois de algumas horas, ele e os pais voltaram para a casa, onde constataram que não havia danos estruturais. Sem energia elétrica e sinal telefônico, Avilez saiu caminhando até um local com sinal de internet e só então soube exatamente o que estava acontecendo. “Me dei conta de que esta tragédia superou os deslizamentos de 15 de dezembro de 1999”. Na ocasião, a tragédia deixou entre 10 mil e 50 mil mortos, número que nunca foi confirmado.
A rede social X, que estava suspensa na Venezuela desde as eleições de 2024, quando o presidente Nicolás Maduro teve uma discussão com Elon Musk, foi liberada e diversos vídeos da tragédia, principalmente em La Guaira, foram compartilhados.
Trabalhos e ajuda
“Pensei que no dia seguinte iriam começar os trabalhos de resgate, mas foram muito poucos. Nossos bombeiros não contam com equipes suficientes nem tecnologia para socorrer as vítimas. Saí buscando formas de ajudar, percebi que não tinham militares o suficiente nas ruas comparado ao que vi em 1999, quando tinha 13 anos. Diversos helicópteros militares traziam equipes para ajudar e retirar as pessoas daqui. Agora o que vemos é a própria população civil ajudando,com as próprias mãos. Mulheres, idosos e até um bebê foram resgatados. Além disso, moradores de outros Estados estão enviando ajuda”.
A presidente interina da Venezuela, Delcy Rodríguez, anunciou horas depois dos terremotos que diversos países, como EUA, Colômbia, Brasil, Chile e El Salvador, anunciaram ajuda. Equipes de El Salvador, por exemplo, foram enviadas à Venezuela. Neste momento, existem 25 mil oficiais venezuelanos e cerca de 2.700 resgatistas estrangeiros atuando no local.
Dois dias depois da tragédia, alguns opositores venezuelanos que estavam refugiados em outros países anunciaram que retornarão ao país natal para ajudar como for possível.
Avilez contou à Carta Global que no dia seguinte aos terremotos ocorreram alguns saques e confusão nas ruas, mas reforça que a cena mais vista tem sido de cooperação, moradores que levam água, roupa e remédios aos mais afetados. “Existem muitos edifícios caídos com possíveis sobreviventes, mas muitos morreram por falta de ajuda nas primeiras horas, que são cruciais. Entre os mortos, está minha prima Astrid, que passou várias horas presa, com dificuldade de respirar por conta da quantidade de pó, até que uma parede caiu em cima dela.”
Segundo Avilez, quase todos os complexos habitacionais construídos durante o governo de Hugo Chávez caíram, assim como os edifícios privados da linha costeira. “Sinto que La Guaira não voltará a florescer sem uma política séria de reorganização territorial, estou muito desesperançoso, considerando me mudar daqui assim que puder”, lamenta o venezuelano.
O prédio onde Avilez mora foi inspecionado e liberado, mas ele diz que ficará na casa com os pais e irmãos, tentando convencê-los de saírem do Estado.
Deixo aqui o episódio “Cómo se recupera Venezuela” do podcast Hoy en El País. Durante o programa, é explicado um pouco o motivo de alguns edifícios terem sido totalmente destruídos em La Guaira e como está a situação de resgate na Venezuela.
Dez anos após o Brexit, Reino Unido não cumpre promessas da saída da UE e vive crise política
Dez anos depois do referendo que culminou na saída do Reino Unido da União Europeia, os resultados econômicos e sociais do Brexit têm frustrado as expectativas alimentadas pelos defensores da ruptura e mergulhado o país em uma crise política. Crescimento mais lento, menor dinamismo comercial, restrições à mobilidade e desafios crescentes em áreas como saúde pública e imigração continuam ou pioraram desde 2016.
Um dia antes do Brexit completar 10 anos, o primeiro-ministro Keir Starmer anunciou sua renúncia - em mais um sinal da crise consequente da saída do bloco europeu. Ele ficará no cargo de forma interina até o dia 1º de setembro, quando o Parlamento encerra o recesso de verão e escolherá seu substituto.
Desde 2016, o Reino Unido foi governado por seis primeiros-ministros: David Cameron, Theresa May, Boris Johnson, Liz Truss, Rishi Sunak e Starmer. Essa troca constante não era algo comum da política britânica, acostumada, inclusive, com líderes longevos.
O Brexit venceu com a promessa de retomar o controle da imigração, da economia e das fronteiras. Nada disso aconteceu como prometido. O PIB britânico é hoje de 4% a 6% menor do que seria sem a saída da União Europeia. A pressão inflacionária aumentou e a imigração continuou.
A produtividade também perdeu força no período, enquanto o comércio exterior registra volume cerca de 15% inferior ao projetado antes da saída.
A promessa de que novos acordos comerciais compensariam o afastamento do bloco europeu tampouco se concretizou plenamente. Segundo análises oficiais, os tratados assinados pelo Reino Unido com países terceiros tiveram impacto econômico limitado, enquanto a libra esterlina perdeu espaço relativo frente ao euro.
A mobilidade entre britânicos e europeus também se tornou mais burocrática. Desde 2025, cidadãos da União Europeia precisam solicitar autorização eletrônica prévia para entrar no Reino Unido, e permanências superiores a 90 dias exigem vistos específicos. O endurecimento das regras afetou especialmente estudantes: o número de universitários europeus matriculados em instituições britânicas caiu quase pela metade desde o referendo de 2016.
Na questão migratória, uma das principais bandeiras da campanha pró-Brexit, o resultado também foi diferente do prometido. Embora o número de cidadãos europeus residentes tenha diminuído, a imigração proveniente de países fora da União Europeia aumentou significativamente nos últimos anos. Paradoxalmente, o desgaste não enfraqueceu os grupos políticos que lideraram a campanha pela saída da UE. Pelo contrário: o partido Reform UK, liderado por Nigel Farage, principal rosto do movimento pró-Brexit, aparece atualmente entre as forças mais competitivas da política britânica.
EUA ampliam sanções contra Cuba apesar de pacote de reformas econômicas
Os Estados Unidos anunciaram uma nova rodada de sanções contra o governo cubano, deixando claro que consideram insuficientes as recentes reformas econômicas promovidas por Havana. O secretário de Estado norte-americano, Marco Rubio, afirmou que as mudanças não alteram o caráter do regime e acusou o governo cubano de priorizar o controle político em detrimento do bem-estar da população.
As novas sanções atingem cinco entidades estatais cubanas, três delas ligadas ao Grupo de Administração Empresarial S.A. (Gaesa), conglomerado controlado pelas Forças Armadas e considerado por Washington o principal sustentáculo financeiro de Havana. Também foi sancionada Annalie Lilliam Rueda Cardero, mulher de Alejandro Castro Espín, filho do ex-presidente Raúl Castro.
Entre as instituições atingidas estão o Banco Financiero Internacional (BFI), a empresa financeira Rafin e a companhia logística Almacenes Universales, todas vinculadas ao Gaesa. Também entraram na lista a estatal Geominera e a siderúrgica José Martí, importantes para os setores de mineração e produção de aço da ilha.
Rubio advertiu que instituições estrangeiras que mantenham relações comerciais com essas empresas sancionadas também poderão ser alvo de punições.
As medidas foram anunciadas apenas quatro dias após Cuba apresentar um amplo pacote de 176 reformas econômicas, considerado o mais profundo em décadas. O plano autoriza a criação de bancos privados, abre empresas estatais à participação de investidores particulares, amplia o espaço para a iniciativa privada, prevê sucessivas desvalorizações da moeda nacional e reduz o alcance dos subsídios universais.
O governo cubano apresentou as mudanças como uma tentativa de preservar o sistema socialista diante da grave crise econômica enfrentada pelo país. No entanto, Washington interpreta as reformas como insuficientes e mantém sua estratégia de aumentar a pressão econômica sobre Havana.
Desde o início do novo mandato de Donald Trump, a Casa Branca vem endurecendo as medidas contra Cuba, incluindo restrições ao fornecimento de combustíveis, sanções a empresas estrangeiras que atuam em setores estratégicos da economia cubana e ações judiciais contra integrantes da cúpula do governo.
França vive onda de calor histórica e registra ao menos 40 mortos por afogamento
A França vive uma onda de calor histórica e registrou na semana passada o dia mais quente desde o início dos registros meteorológicos, em 1947. As temperaturas chegaram a 39 °C e 42 °C no sudoeste do país.
Segundo a agência meteorológica Météo France, 58 Departamentos (Estados) estão em alerta vermelho e outros 31 em alerta laranja, o que significa que cerca de 90% da população - aproximadamente 63 milhões de pessoas - ficará exposta a calor extremo.
A onda de calor já provocou consequências graves: 40 pessoas morreram afogadas em rios, lagos e praias, muitas delas jovens que tentavam escapar das altas temperaturas em áreas sem vigilância ou com banho proibido.
Os impactos atingem também a educação e o turismo. Cerca de 1.800 escolas foram fechadas e outras 8 mil adaptaram seus horários por falta de sistemas de ar-condicionado.
O setor de transportes enfrenta dificuldades semelhantes. Trens sem ar-condicionado tiveram viagens canceladas e a empresa ferroviária SNCF recomendou que pessoas vulneráveis evitem deslocamentos durante os dias mais quentes.
A nova onda de calor reacendeu o debate sobre a preparação da França para eventos climáticos extremos. Grande parte dos edifícios do país é antiga e difícil de adaptar, enquanto pesquisas indicam que muitos franceses ainda resistem à instalação de aparelhos de ar-condicionado por preocupações ambientais.
Cessar-fogo no Irã é cada vez mais frágil
A tensão no Oriente Médio voltou a escalar após o Irã lançar, na madrugada deste domingo, ataques com drones e mísseis contra bases utilizadas pelos Estados Unidos no Kuwait e no Bahrein, em resposta aos bombardeios americanos contra posições iranianas no Estreito de Ormuz.
A Guarda Revolucionária iraniana ameaçou abandonar o cessar-fogo firmado há apenas 11 dias, quando da assinatura do memorando de entendimento entre os dois lados, caso Washington mantenha as ofensivas e afirmou que bases americanas na região "experimentarão o inferno".
O presidente Donald Trump acusou Teerã de violar repetidamente o acordo e chegou a ameaçar o fim da República Islâmica caso os ataques continuem. O novo confronto aprofunda a instabilidade no Golfo, compromete os esforços diplomáticos de desescalada e aumenta os riscos para a navegação no estreito de Ormuz, por onde passa uma parcela significativa do comércio mundial de petróleo e fertilizantes.






