Trump prepara alegações de fraude às vésperas das eleições legislativas
Em discurso, presidente norte-americano retoma acusações do pleito de 2020 sem apresentar provas
Por Fernanda Simas
Em um discurso à nação na quinta-feira (16), Donald Trump começou a pavimentar os argumentos para as eleições de meio de mandato que ocorrem em novembro, no momento em que os republicanos enfrentam um cenário desfavorável nas pesquisas. O presidente norte-americano voltou a questionar o resultado das presidenciais de 2020, que perdeu para Joe Biden, e prometeu divulgar documentos que, segundo ele, revelariam falhas no sistema eleitoral americano.
O discurso de fraude eleitoral não é novo. Pelo contrário, é uma constante nas falas de políticos derrotados — inclusive, se antes esse era um discurso muito usado por autocratas ou a extrema direita, agora é parte do enredo de diferentes espectros políticos e, no último mês, fez parte do discurso dos que perderam na Colômbia e no Peru.
No caso de Trump, é um tema presente desde 2020, nunca foi deixado de lado pelo republicano.
A diferença é que agora o tema aparece de forma antecipada. Para o jornalista e analista Peter Baker, em artigo no jornal The New York Times, o republicano busca construir desde já uma narrativa que permita questionar a legitimidade das eleições legislativas em caso de derrota. Com o discurso de quinta-feira, Trump tenta recolocar a segurança eleitoral no centro do debate político, justamente no momento em que perde popularidade em razão da guerra no Irã e pelo aumento do custo de vida nos Estados Unidos.
Durante cerca de meia hora, o presidente norte-americano afirmou ter determinado a divulgação de documentos sobre a integridade eleitoral. Entre as alegações apresentadas estão supostas tentativas de influência de China, Venezuela e integrantes do chamado “Estado profundo” nas eleições de 2020. Mas os documentos não apresentam evidências de que essas ações tenham alterado o resultado da eleição presidencial nem comprovam fraude nas urnas — o que já havia sido concluído em investigações conduzidas anteriormente por órgãos de inteligência americanos.
Para Baker, a insistência de Trump reflete tanto uma incapacidade pessoal de admitir a derrota quanto uma estratégia política. Desde que retornou à Casa Branca, o presidente nomeou aliados que compartilham sua visão de colocar em dúvida o processo eleitoral, promoveu investigações para revisar alegações já desmentidas e defendeu mudanças nas regras de votação.
A narrativa da fraude é um elemento central da identidade política do movimento MAGA (Make America Great Again) — base eleitoral de Trump — e, não por acaso, é retomado no momento de baixa popularidade.
Sistema de votação
Ao longo do discurso, o presidente mencionou um relatório sobre os aproximadamente 278 mil imigrantes sem documentação legal registrados para votar nos EUA, argumento utilizado para defender mudanças na legislação eleitoral. O número, porém, contrasta com estudos anteriores e é contestado por especialistas e autoridades eleitorais. Trump aproveitou para pressionar o Congresso a aprovar o projeto que endurece as exigências de identificação dos eleitores na tentativa, justamente, de impedir o voto de imigrantes em situação irregular no país.
Desde o ano passado, o republicano tenta fechar o cerco eleitoral com restrições ao voto pelo correio e tentativas de ampliar o controle federal sobre as eleições. Boa parte das iniciativas enfrenta resistência nos tribunais, que têm barrado diferentes ações do governo por considerá-las inconstitucionais.
Paralelamente, cresce a disputa pelo redesenho dos distritos eleitorais - prática conhecida como gerrymandering -, intensificada após decisão da Suprema Corte que ampliou a liberdade dos Estados para redefinir seus mapas eleitorais. Republicanos tentam redesenhar distritos em Estados como Texas, Flórida, Alabama, Tennessee e Carolina do Norte para ampliar sua representação na Câmara, enquanto democratas respondem com mudanças em Estados como Califórnia e Utah. A expectativa é que essas alterações possam influenciar diretamente a composição do Congresso em novembro.
Atualmente, os republicanos mantêm uma maioria estreita na Câmara dos Representantes e buscam preservar o controle do Congresso, enquanto os democratas esperam recuperar parte das cadeiras perdidas. Historicamente, o partido do presidente costuma sofrer derrotas nas eleições de meio de mandato.
Foco na China
Durante boa parte de seu pronunciamento, Trump atacou a China. Chegou a dizer que Pequim obteve ilegalmente dados de cerca de 220 milhões de eleitores americanos e tentou influenciar a cobertura da imprensa durante a campanha de 2020.
A resposta de Pequim foi imediata. O governo chinês classificou as acusações de “invenções” e negou qualquer interferência nas eleições americanas, afirmando que sempre respeitou o princípio de não intervenção nos assuntos internos de outros países. O Ministério das Relações Exteriores chinês destacou que os próprios documentos divulgados pela Casa Branca não comprovam manipulação dos resultados eleitorais.
A troca de acusações ocorre apesar da recente reaproximação entre Washington e Pequim e ameaça aumentar novamente as tensões entre as duas potências às vésperas de novas negociações comerciais previstas para setembro.
As principais redes de televisão dos EUA não transmitiram o pronunciamento ao vivo, argumentando que as alegações do presidente já haviam sido amplamente desmentidas. Segundo as agências de inteligência norte-americanas, em conclusão de 2021, embora Rússia, China e Irã tenham tentado influenciar as informações divulgadas durante a campanha eleitoral dos EUA, não houve manipulação das urnas eletrônicas nem interferência capaz de alterar o resultado.
Após o discurso, alguns aliados republicanos tiveram reações tímidas, preocupados com o impacto do tema às vésperas das legislativas. Ao continuar tentando minar a confiança no sistema eleitoral e sugerindo que apenas vitórias republicanas seriam legítimas, Trump amplia a polarização política e cria um ambiente de incerteza. Resta saber até onde o presidente está disposto a levar essa estratégia caso o resultado das urnas volte a lhe ser desfavorável.
Não há moradias em Boston para tanta gente e as que existem estão muito caras
Por Jenny Carolina González
Incerteza é a palavra que define a vida de Patricia Ospina nos últimos meses em Boston, após receber a solicitação para desocupar o imóvel onde ela e outros três colegas de moradia viveram por cinco anos.
Com toda a sua vida empacotada em caixas, ela precisa encontrar um novo lugar com urgência. “Não é que eu não queira sair, é que não consigo encontrar”, disse a cidadã norte-americana de origem colombiana.
Quartos como o que ela ocupava, porém mais caros, ou do mesmo valor, mas sem iluminação e muito pequenos são as opções que encontrou. “Não posso trabalhar apenas para pagar o aluguel”, afirmou a mulher de 57 anos, funcionária da equipe de limpeza de um hospital.
Uma análise da imobiliária Redfin coloca Boston entre as cidades com a maior diferença entre renda e custo da moradia nos Estados Unidos, atrás apenas de Nova York e Miami. “É necessária uma renda anual de US$ 113,4 mil para cobrir o aluguel médio de US$ 2.835 por mês, enquanto a renda média dos inquilinos é de US$ 69,4 mil, criando uma diferença de 38,7%.”
Após 15 anos defendendo o direito das comunidades a uma moradia digna, Andrés Del Castillo, diretor interino da Vida Urbana, afirma que o problema é mais grave do que em anos anteriores. “O imigrante recém-chegado, mesmo sem documentos, ainda conseguia acessar uma moradia digna, sem baratas, ratos, sem problemas de mofo ou buracos nas paredes. Hoje, para conseguir uma moradia acessível, é preciso aceitar um proprietário que vai oferecer condições deploráveis”, explicou.
Segundo o portal Apartments.com, a partir de setembro de 2025 o aluguel médio em Boston passou a ser de US$ 3.511 por mês, um valor 114% superior à média nacional.
A situação piora quando os proprietários exigem caução, o primeiro e o último mês de aluguel antecipadamente. “Isso torna a situação muito mais difícil para a comunidade. Não é apenas encontrar um apartamento, mas também ter dinheiro suficiente para conseguir se mudar”, afirmou Oscar Guana, pesquisador colombiano da Universidade de Indiana, que vive em Boston desde 2019.
Em um artigo publicado no início deste ano, Demetrios Salpoglou, CEO da Boston Pads, empresa que atua no mercado de aluguel em toda a Nova Inglaterra, explicou que a oferta de novas unidades habitacionais vem diminuindo de forma constante nos últimos quatro anos, impactando diretamente o aumento dos custos de aluguel.
No texto, ele afirmou que a escassez de imóveis contrasta com o crescimento populacional, impulsionado por pessoas com maior poder aquisitivo. “A cidade continua gerando empregos bem remunerados nos setores médico e tecnológico, o que atrai talentos do mundo inteiro. Esses novos moradores geraram e continuarão gerando uma demanda adicional por moradias de alta qualidade.”
A questão é: que tipo de moradores Boston deseja atrair e que tipo de moradia precisa ser construída. Del Castillo, da Vida Urbana, acompanhou a transformação de várias áreas de East Boston, um bairro tradicionalmente formado por comunidades migrantes, ao longo dos últimos seis anos, mas afirma que talvez apenas 1% das novas moradias sejam acessíveis.
“Queremos resolver o problema da moradia não apenas porque ela é muito cara, mas por uma questão moral: há comunidades que merecem e devem poder viver nesta cidade. A primeira prioridade é preservar essas comunidades”, disse.
Ele acrescentou que já viu aumentos de aluguel de até US$ 1 mil em imóveis cujos proprietários não investem sequer em reparos básicos e que, diante da atual situação migratória, muitos inquilinos têm medo de exigir seus direitos.
O líder comunitário explicou ainda que, para muitos investidores em Boston, os estudantes são os inquilinos preferidos. “Com a chegada das incorporadoras, mudou a ideia de como o bairro pode ser e de como torná-lo mais atraente para os estudantes”, afirmou.
“Quando o morador de Boston vai embora, a pergunta é: para onde? Se nossa comunidade não pode permanecer aqui, ela se muda para Lynn ou Revere. Então os preços sobem nesses lugares e acabam empurrando quem já mora lá para outro lugar. É como jogar uma pedra na água”, concluiu Del Castillo.
Para facilitar o acesso à moradia, o governo de Massachusetts determinou que a comissão do corretor imobiliário (broker’s fee) deverá ser paga por quem contratou o corretor ou vendedor, e não pelo inquilino.
Governo Trump volta a usar a arma comercial contra Brasil e ameaça o Canadá
O governo de Donald Trump voltou a colocar o comércio à serviço da diplomacia e investiu contra dois países considerados aliados dos Estados Unidos de longa data. Na quarta-feira (15/07) anunciou uma nova tarifa de 25% sobre a maior parte das importações brasileiras, que entrará em vigor em 22 de julho. Dois dias depois, ameaçou ampliar a pressão comercial sobre o vizinho e grande aliado: Canadá.
A medida contra o Brasil foi justificada como sendo o resultado de uma investigação comercial que acusa o País de práticas desleais, como falhas no combate ao desmatamento ilegal, pirataria e supostos prejuízos causados pelo sistema de pagamentos Pix a empresas americanas. Brasília rejeitou as acusações, classificou a decisão como política e anunciou que aplicará a Lei da Reciprocidade, impondo tarifas equivalentes sobre produtos dos Estados Unidos. (Este foi um dos grandes temas tratados no bloco de América Latina do Xadrez Verbal dessa semana)
Apesar da nova rodada de tarifas, Washington excluiu mais de 2.100 produtos da medida, preservando parte das principais exportações brasileiras, como carne bovina, café, suco de laranja, celulose e componentes da indústria aeronáutica - tremendo um novo impacto inflacionário como o ocorrido no tarifaço do ano passado. Já itens como açúcar, aço, máquinas agrícolas, equipamentos elétricos e diversos produtos manufaturados serão taxados.
O governo Lula afirma que a decisão não se justifica do ponto de vista comercial, já que os EUA acumulam superávit nas trocas com o Brasil há mais de uma década e a maior parte das importações americanas entra no mercado brasileiro sem tarifas. O novo “tarifaço” ocorre às vésperas das eleições presidenciais brasileiras e tende a ter impacto político maior do que econômico, tornando-se um dos principais temas da campanha.
Nesta sexta-feira, foi a vez do Canadá virar o alvo da Casa Branca. Trump ameaçou ampliar a pressão comercial sobre o vizinho ao responsabilizar o país pela fumaça dos grandes incêndios florestais que encobriu cidades como Nova York, Chicago, Detroit e Toronto.
Em publicação nas redes sociais, o presidente norte-americano afirmou que a falta de gestão das florestas canadenses estaria causando prejuízos aos EUA e defendeu que esse custo seja incorporado às tarifas já aplicadas sobre produtos canadenses. O governo do primeiro-ministro Mark Carney rebateu as críticas, lembrando que os incêndios também atingem o território americano e defendendo maior cooperação bilateral no combate às queimadas, cuja intensidade tem sido associada às mudanças climáticas.
Guerra no Irã recomeça e amplia risco para comércio global
A guerra entre Estados Unidos e Irã voltou a se intensificar após o colapso da trégua firmada no mês passado. Pelo sexto dia consecutivo, na sexta-feira (17/07) forças americanas realizaram bombardeios contra infraestruturas militares e de transporte iranianas, atingindo pontes, instalações ferroviárias, aeroportos, bases navais e posições da Guarda Revolucionária.
Segundo a imprensa iraniana, ao menos sete pessoas morreram. Washington afirmou que a operação tem como objetivo reduzir a capacidade militar de Teerã e impedir que o país mantenha o controle estratégico sobre o Estreito de Ormuz.
O Irã respondeu ampliando sua ofensiva contra interesses americanos na região. Além de lançar mísseis e drones contra bases dos EUA na Jordânia, Bahrein e Kuwait, Teerã reivindicou o primeiro ataque direto contra uma instalação militar americana na Síria, na base de Al Tanf. Paralelamente, grupos aliados ao regime iraniano, como o Hezbollah no Líbano e milícias pró-Teerã no Iraque, intensificam ataques contra forças israelenses e americanas, ampliando o risco de uma regionalização ainda maior do conflito.
A nova escalada também voltou a afetar o comércio internacional. O Irã retomou o bloqueio do Estreito de Ormuz, por onde passa cerca de um quinto do petróleo comercializado no mundo, enquanto os EUA reforçaram o bloqueio aos portos iranianos. A paralisação parcial da principal rota marítima para petróleo e gás elevou os preços do barril e reacendeu preocupações com uma nova onda inflacionária global.
Demissão de ministro da Defesa provoca crise política e protestos na Ucrânia
A decisão do presidente Volodmir Zelenski de demitir o ministro da Defesa, Mykhailo Fedorov, seis meses após sua nomeação, desencadeou uma crise política na Ucrânia e levou milhares de pessoas às ruas em diferentes cidades do país em raros protestos massivos contra o governo em meio à guerra. Considerado o principal responsável pela modernização tecnológica das Forças Armadas, Fedorov tornou-se um símbolo da estratégia ucraniana com base no uso intensivo de drones para atacar alvos militares russos e enfraquecer a ocupação da Crimeia - o que vinha dando resultados importantes aos ucranianos no campo de batalha.
Os protestos, os maiores desde as manifestações em defesa das agências anticorrupção no ano passado, refletem a insatisfação de parte da sociedade com a mudança no comando da Defesa em um momento em que analistas avaliam que a guerra passou a favorecer Kiev.
Fedorov afirmou que sua saída foi resultado de divergências com o comandante das Forças Armadas, Oleksandr Syrskyi. Segundo o ex-ministro, ele chegou a pedir a Zelenski a substituição do comandante, acusando-o de bloquear iniciativas voltadas à modernização do Exército e ao fortalecimento da guerra tecnológica. Syrskyi afirmou que o foco deve permanecer na condução da guerra. Zelenski reconheceu a existência de divisões internas, mas defendeu a necessidade da reorganização e afirmou que preferia preservar a unidade do país.
Os protestos reuniram milhares de ucranianos em Kiev, Kharkiv, Odessa e Lviv, que pediram a reversão da demissão e a saída de Syrskyi do comando militar. A crise ganhou novos contornos com a renúncia do comandante adjunto da Força Aérea, coronel Pavlo Yelizarov, em solidariedade a Fedorov, enquanto parlamentares adiaram a votação para confirmar o novo ministro da Defesa. Diante da resistência política, Zelenski anunciou temporariamente o chefe da inteligência militar, general Yevhen Khmara, para assumir interinamente o ministério, enquanto busca um nome capaz de reunir apoio no Parlamento e conter a maior crise interna enfrentada pelo governo desde o início da guerra.
Israel dissolve Parlamento e convoca eleições antecipadas para outubro
O Parlamento de Israel aprovou sua dissolução nesta semana e convocou eleições gerais para o dia 27 de outubro, encerrando antecipadamente a legislatura. Antes do fim dos trabalhos, a coalizão do primeiro-ministro Binyamin Netanyahu aprovou uma série de projetos considerados estratégicos para ampliar os poderes do Executivo e fortalecer a atual aliança entre partidos conservadores, ultranacionalistas e ultraortodoxos.
Netanyahu inicia agora sua 12ª campanha eleitoral em um cenário marcado pelas guerras em Gaza, Líbano e Irã, além da crescente pressão internacional sobre Israel por acusações de violações do direito humanitário.
Entre as leis mais polêmicas aprovadas pelo Parlamento está a que reduz os poderes do procurador-geral, permitindo que ministros deixem de seguir pareceres jurídicos antes obrigatórios e ampliando o controle do governo sobre a nomeação e destituição do cargo. Críticos afirmam que a mudança aprofunda a reforma judicial iniciada em 2023 e enfraquece um dos principais mecanismos de fiscalização do Executivo. O governo argumenta que a medida fortalece a democracia ao ampliar a autonomia de autoridades eleitas frente ao Judiciário.
Outra lei aprovada amplia a influência do governo sobre a imprensa, extinguindo o atual órgão regulador da mídia e substituindo-o por um conselho cuja maioria será indicada pelo ministro das Comunicações.
O pacote legislativo também preserva a isenção do serviço militar para a comunidade ultraortodoxa, tema que gera forte divisão na sociedade israelense.






