Venezuela sob Delcy: ceticismo político impede chegada de investimentos
Uma transição democrática com a convocação de eleições é deixada em segundo plano pelo atual regime chavista no poder
Por Fernanda Simas
Num passado recente, analistas venezuelanos não imaginavam juntar “chavismo” e “pró-EUA” em uma mesma frase. Mas há três meses, essa união tem ganhado força. Com a captura de Nicolás Maduro pelos militares americanos, a presidente interina da Venezuela, Delcy Rodríguez, vem se consolidando como “sócia” do governo de Donald Trump, mas consolidar essa imagem passa por uma transição política que continua em segundo plano.
“O regime segue igual porque o que houve foi uma negociação que beneficiou o chavismo e as petroleiras americanas. Não há nenhuma intenção de que ocorra uma eleição na Venezuela no curto prazo”, explica Erik del Bufalo, professor da Universidade Simón Bolívar. “Há uma associação estratégica do chavismo sem Maduro e do MAGA (make America great again - movimento da base trumpista).”
Na semana passada, Delcy participou, por videoconferência, de um fórum de empresários respaldado pelo fundo soberano da Arábia Saudita em Miami, durante o qual enfatizou as mudanças econômicas na Venezuela e garantiu que o país terá a segurança jurídica necessária para atrair investimentos estrangeiros. Ainda assim, muitos estão reticentes com as promessas e repetem a frase do CEO da ExxonMobil, Darren Woods: “na Venezuela, não se pode investir”.
Após assumir interinamente, Delcy libertou políticos e opositores detidos, Jorge Rodríguez – irmão de Delcy e presidente da Assembleia Nacional – anunciou a surpreendente reforma da Lei de Hidrocarbonetos, revertendo parcialmente a política de estatização do setor petroleiro, imposta em 2007 pelo então presidente Hugo Chávez.
A abertura venezuelana ocorre sob as asas de Washington, que, por sua vez, tenta mostrar que está recuperando o brilho passado da indústria petrolífera do país sul-americano. Mas isso não significa que a indústria voltará ao antigo período de ouro.
A infraestrutura petrolífera na Venezuela está muito danificada em razão do próprio embargo americano que vigorou por anos e da corrupção do regime chavista. Seriam necessários anos para recuperá-la. Analistas falam em mais de 10 anos para uma melhoria real.
Mas o grande ceticismo com relação a uma nova Venezuela vem da falta de mudanças políticas. Internamente, Delcy se coloca diante da população como uma presidente que lutará pela liberdade e soberania da Venezuela, por vezes se refere ao 3 de janeiro como uma “agressão” e, por vezes, cita as falas de Trump sobre a nova relação entre os dois países.
Segundo Del Bufalo, a classe média alta da Venezuela é a mais entusiasmada com a nova relação Caracas-Washington. “Quanto mais vai caindo a classe social, mais ceticismo. Tivemos protestos pelos salários na semana passada. Vemos uma resignação e incerteza generalizadas”.
Trocas chavistas
Ao longo das últimas semanas, a presidente interina realizou diversas mudanças no governo, mudanças que deixam para trás figuras-chave no apoio a Maduro, mas trazem para seu lugar pessoas que sempre foram leais aos princípios do chavismo – que seguem vigorando.
Entre as mudanças estão: a substituição do ministro da Defesa Vladimir Padrino por Gustavo González López; a saída do ex-procurador-geral Tarek William Saab e substituição por Larry Devoe; a mudança no segundo posto mais alto das Forças Armadas, que deixa de ser ocupado pelo general Domingo Hernández Lares e passa para o major-general Rafael Prieto Martínez.
“Com o passar dos dias, fica mais claro o que aconteceu no dia 3 de janeiro. Analistas confirmam isso, se tratou de um golpe de estado de setores internos do Chavismo com a ajuda dos EUA para tirar Maduro, o grupo de Maduro e os cubanos que o apoiavam. De resto, o regime segue o mesmo”, afirma Del Bufalo. Ainda existem mais de 500 políticos presos no país, por exemplo.
Para alguns analistas políticos, Delcy está tentando sobreviver à administração Trump, olhando para as opções para continuar no poder, tentar melhorar a aprovação que hoje gira em torno de 30% e, se conseguir uma melhora na economia, tentar se manter na presidência em uma eventual eleição.
Do lado americano, mais um motivo de ceticismo. O governo não comenta sobre os políticos que seguem presos, sobre o fato da opositora Maria Corina Machado – e outros opositores – continuarem exilados.
Esse silêncio preocupa a oposição venezuelana. Em entrevista recente ao jornal El País, o opositor Leopoldo López afirmou não ver num futuro próximo seu país realizando eleições ou uma transição democrática.
“Estamos entrando em um processo onde o chavismo se consolida como sócio estratégico dos EUA”, diz Del Bufalo.
O episódio “Trump, Venezuela y la ilusión petrolera” do podcast El Hilo traz uma visão sobre a atual situação da indústria petroleira venezuelana, os problemas com a infraestrutura e as promessas que dificilmente serão cumpridas. Vale a pena conferir.
Guerra no Irã completa um mês em meio a escaladas militares
Esta segunda-feira, a guerra entre Estados Unidos e Israel contra o Irã chegou ao 31º dia e entra em uma fase mais volátil, marcada por ameaças explícitas e sinais contraditórios de negociação, além do avanço por terra das forças israelenses por terra no Líbano.
Enquanto Teerã avança na possibilidade de abandonar o Tratado de Não Proliferação Nuclear, o presidente Donald Trump ameaça destruir a infraestrutura crítica como usinas elétricas, instalações petrolíferas e plantas de dessalinização — o que poderia configurar crime de guerra. Em paralelo, o americano afirma haver progresso em negociações com o que chama de “novo regime” iraniano.
Washington combina pressão militar crescente — com a chegada de soldados ao Golfo Pérsico — e tenta conduzir o conflito à mesa de negociações por meio de intermediários como Paquistão, Turquia e Arábia Saudita. Teerã nega qualquer negociação direta e emite sinais ambíguos, como permitir a passagem de navios petroleiros dos EUA pelo estreito de Ormuz, ao mesmo tempo em que discute medidas como a cobrança de pedágios na rota.
O conflito também se expande com Israel intensificando operações tanto no Irã quanto no Líbano, onde enfrenta o Hezbollah. A ofensiva israelense já deixou mais de mil mortos no território libanês, incluindo civis e trabalhadores de saúde e dois integrantes das forças de paz da ONU no país. O cenário aponta para um risco crescente de escalada regional mais ampla.
Em paralelo, Israel sinaliza uma nova etapa em sua ofensiva militar contra o Irã e afirma ter praticamente concluído seus objetivos de enfraquecimento das capacidades militares iranianas. Agora, a estratégia passa a focar em alvos “econômicos” do regime iraniano, em uma tentativa de ampliar a pressão interna.
Mais sobre a guerra:
Espanha determina o fechamento de seu espaço aéreo para aeronaves americanas;
União Europeia prolonga por um ano as sanções ao Irã por violações aos direitos humanos;
Trump fala em se apropriar do petróleo iraniano e da ilha de Kharg;
Um morto em ataques do Irã no Kuwait.
Petroleiro russo chega a Cuba, mas alívio deve ser de apenas duas semanas
Um navio petroleiro com bandeira russa, o Anatoly Kolodkin, chegou nesta segunda-feira 30 ao porto de Matanzas, em Cuba, transportando mais de 730 mil barris de petróleo bruto. A embarcação havia partido há cerca de 20 dias do porto de Primorsk, na Rússia, e sua chegada vai aliviar a situação de caos energético na ilha.
Os Estados Unidos flexibilizaram parcialmente o bloqueio energético imposto à ilha, que enfrenta uma grave crise marcada por apagões frequentes, racionamento de combustível e escassez generalizada de produtos. O envio do navio foi confirmado pelo Kremlin, que classificou a carga como “ajuda humanitária”. Segundo o porta-voz Dmitri Peskov, a operação teria sido previamente discutida com autoridades americanas.
Horas antes, Washington autorizou a passagem do navio pela zona de controle marítimo criada em janeiro, após endurecer sanções contra Havana com a captura de Nicolás Maduro na Venezuela. Desde então, o fornecimento de petróleo venezuelano foi cortado e os EUA impuseram um bloqueio ao envio partindo de outros países. Cuba vinha, então, sobrevivendo com reservas limitadas de petróleo. Analistas afirmaram que a ilha tinha mais uma semana antes de um colapso.
A decisão de Washington marca uma inflexão na estratégia do governo de Donald Trump, que passou meses pressionando economicamente a ilha. Apesar de minimizar o impacto da chegada do navio russo, Trump afirmou que não impedirá novos envios, independentemente da origem.
A situação ainda é preocupante porque o atual carregamento deve garantir apenas um alívio temporário — suficiente para abastecer as usinas elétricas por cerca de duas semanas — em meio a uma crise energética que já compromete hospitais, transporte e a atividade econômica. Além disso, segundo especialistas, o tempo de descarregamento, refino e distribuição desse petróleo pode levar entre 20 a 25 dias.
Milei tem revés com suspensão de artigos da Lei Trabalhista
Um juiz trabalhista da Argentina suspendeu a aplicação de 82 artigos da nova Lei Trabalhista impulsionada pelo governo, em um revés ao menos temporário para a agenda reformista do presidente Javier Milei. O juiz Raúl Horacio Ojeda atendeu a um pedido da CGT (Confederação Geral do Trabalho), argumentando que a implementação imediata das mudanças poderia gerar danos graves e irreversíveis a trabalhadores e instituições.
Na decisão, o magistrado destacou que há indícios suficientes de inconstitucionalidade e risco jurídico na aplicação da lei, especialmente em pontos relacionados a direitos sindicais, negociação coletiva e greve. Segundo Ojeda, permitir que as normas entrem em vigor antes de uma análise definitiva poderia criar situações de difícil reversão — como a implementação de novos mecanismos trabalhistas que, posteriormente, poderiam ser invalidados pela Justiça.
A medida cautelar tem caráter provisório, mas reforça a insegurança jurídica em torno da reforma, considerada uma das principais vitórias legislativas do governo Milei. Ao suspender trechos centrais da lei, como a ampliação da jornada de trabalho para até 12 horas e a possibilidade de se parcelar uma rescisão trabalhista, a decisão abre espaço para uma disputa judicial prolongada e sinaliza resistência institucional às mudanças propostas, em um contexto de forte tensão entre o Executivo e o movimento sindical.
Ditadura argentina
As tensões com o Executivo também ficaram expostas semana passada, na tradicional marcha de 24 de março, ao se completarem 50 anos da última ditadura militar argentina (1976-1983). Na ocasião, a memória histórica representada nas manifestações entrou em choque com o contexto político de revisionismo histórico.
Embora a maioria da população ainda associe a ditadura a repressão, morte e desaparecimentos, o governo Milei tem relativizado crimes do período e reduzido políticas públicas ligadas a direitos humanos.
Pesquisas recentes indicam que o consenso sobre a condenação do regime militar permanece majoritário, mas apresenta fissuras: enquanto 71% avaliam negativamente a ditadura, uma parcela relevante relativiza seus crimes ao enquadrá-los como parte de uma “luta contra o terrorismo”. Ao mesmo tempo, educadores e especialistas apontam um distanciamento das novas gerações em relação ao tema, muitas vezes visto como algo remoto.
A transmissão da memória enfrenta desafios, e o debate público acaba ofuscado por preocupações mais imediatas, como a crise econômica e reformas do governo.
Israel aprova pena de morte a palestinos da Cisjordânia condenados por terrorismo
O Parlamento de Israel aprovou nesta segunda-feira uma lei que estabelece a pena de morte para palestinos da Cisjordânia condenados por ataques terroristas com resultado fatal. A medida foi aprovada por 62 votos a 48 no Knesset e é uma vitória política para a ala de extrema direita do governo de Binyamin Netanyahu, especialmente para o ministro da Segurança Nacional, Itamar Ben Gvir.
A legislação determina a execução por enforcamento como punição padrão, permitindo prisão perpétua apenas em “circunstâncias especiais”, sem detalhar as exceções. Além disso, reduz as exigências para a sentença — que passa a depender de maioria simples entre juízes militares — e elimina o direito de apelação. Na prática, a lei se aplica quase exclusivamente a palestinos, já que eles são julgados por tribunais militares, enquanto cidadãos israelenses seguem sob a jurisdição civil.
A Autoridade Palestina condenou a medida, classificando-a como uma “escalada perigosa” e acusando Israel de institucionalizar execuções sob respaldo legal.





