20 dias da guerra que desafia os EUA: Irã transforma custo em estratégia
Conflito se amplia, impactos econômicos são sentidos no mundo e Trump se vê isolado e com dificuldades para declarar vitória
Por Fernanda Simas
“O regime (iraniano) está numa guerra de sobrevivência”. A frase do professor de relações internacionais da ESPM-SP Gunther Rudzit também é parte da explicação de muitos outros analistas políticos sobre os rumos que a guerra entre Estados Unidos e Israel contra o Irã tem tomado. Em 20 dias de conflito, países do Golfo Pérsico foram arrastados para dentro da guerra, a economia mundial sente os efeitos do aumento do preço do petróleo e o governo Donald Trump se encontra isolado em um conflito sem saída simples.
Essa é uma guerra assimétrica, entre o maior poderio militar do mundo de um lado e, do outro, um país com cerca de 93 milhões de habitantes governado por um regime que se prepara para um possível enfrentamento com os EUA desde que assumiu o poder, em 1979. “Imaginemos o cenário em que o Irã perde a guerra. O Irã e a sociedade iraniana vão continuar existindo. Agora, se o regime tiver que aceitar uma transição política, eles (aiatolás) sabem que vão ser mortos”, explica Rudzit. “É uma guerra de existência, de sobrevivência do regime. É por isso que eles vão lutar até o fim.”
O Irã tem muitos equipamentos militares baratos, drones não tão precisos, que estão sendo usados com a intenção de causar o maior estrago possível e forçar o uso, por parte dos americanos, de equipamentos muito mais caros para interceptar tais drones, por exemplo. Um míssil das baterias antimísseis americanas custa cerca de US$ 5 milhões, enquanto o drone derrubado por ele custa US$ 10 mil.
De acordo com Rudzit, os EUA têm usado o bombardeiro B-2 e todos os caças que a Força Aérea e a Marinha possuem - os principais caças são os F-35, F-22, F-18 e F-15 - e, segundo relatos da imprensa americana, muitos equipamentos militares estão sendo deslocados de locais como a Coreia do Norte para serem usados na guerra contra o Irã. Além disso, os militares americanos ainda contam com os mísseis Tomahawks de longa distância.
Do lado iraniano, o que tem sido usado contra alvos em Israel e países do Golfo Pérsico são os mísseis balísticos de curto e médio alcance, chamados Shahabs, e os drones Shaheds - são esses que estão sendo interceptados pelo armamento mais caro dos EUA. “Essa estratégia assimétrica do Irã, colocando na ponta do lápis, é uma guerra econômica. A aposta é mais ou menos quem vai ficar sem munição primeiro. Se os americanos vão ficar sem míssil antiaéreo, ou se o Irã vai ficar sem drones”, afirma Rudzit.
Uma situação que começou a ser ventilada e pode mudar o cenário de um Irã que tem conseguido resistir às investidas americanas é a entrada dos curdos no conflito. “Se os curdos iraquianos concordarem em entrar no Irã, treinar os curdos iranianos e fazer uma guerra de guerrilha, isso pode mudar os rumos da guerra”, diz Rudzit. Teerã chegou a transferir unidades de Teerã para o noroeste do país, onde ficam os curdos.
Guerra pelo mar
A tática de guerrilha travada pelo regime iraniano também alcançou o mar. Ao longo dos últimos dias, o Irã cumpriu com a antiga promessa de fechar o Estreito de Ormuz - por onde passam 20% de todo petróleo comercializado no mundo. O professor da ESPM explica, ainda, que os militares iranianos estão usando lanchas rápidas e minas marítimas como foi feito na Primeira Guerra Mundial.
Nesta semana, o preço do barril de petróleo tipo Brent chegou a US$ 111. E, no que pode ser uma forte escalada na guerra, instalações iranianas de produção de energia, as plantas petroquímicas de Pars Sul - o maior campo de gás natural do mundo - foram atacadas. A imprensa atribui o ataque a Israel e aos EUA, que negam. Em reação, o Irã atacou Catar, Emirados Árabes Unidos e Omã.
Mesmo que a guerra se encerre hoje, a cadeia do petróleo não vai se recuperar tão rápido. Portanto, esse novo choque do petróleo deve perdurar durante um tempo. Na prática, consumidores na Europa e nas Américas já pagam mais pelo combustível, esse aumento deve ser repassado a fretes de produtos e o mundo deve sentir um aumento inflacionário.
Ainda assim, a maior pressão para que essa guerra acabe está nas mãos dos americanos. “Quem vai dizer isso é Trump. Porque é o cálculo político dele”, afirma Rudzit, explicando que a pressão econômica mundial já se tornou um fator que pode impactar na lógica do presidente americano. que precisa sair da guerra declarando vitória. “Ele precisa cantar a vitória para o eleitor dele aceitar o fato de ele ter feito tudo isso”. Fato é que a base eleitoral trumpista, o MAGA (Make America Great Again) sempre foi contra o envolvimento americano nas chamadas guerras longe dos EUA.
Impactos no Golfo
Ainda é cedo para especular como essa guerra vai remodelar o Oriente Médio, com qual força Israel sairá, como estará o regime dos aiatolás e qual o tamanho da presença americana na região após o conflito. Mas os impactos já são grandes, inclusive para as monarquias do Golfo Pérsico que há anos trabalham para serem vistas como hub de turismo e segurança na região.
As monarquias do Golfo haviam decidido ficar neutras num eventual conflito como o atual, mas, a partir do momento em que o Irã continua atacando esses países - o aeroporto de Dubai foi alvo, por exemplo -, essa postura mudou.
“Os Emirados, principalmente para Dubai, os investidores estrangeiros estarem lá pelo turismo, pela segurança e estabilidade era fundamental. E no caso da Arábia Saudita, terminar de implementar o projeto visão 2030 do Mohammed bin Salman requer estabilidade”, explica Rudzit. A certeza, agora, é que os planos dessas monarquias passam pela situação do Irã pós-guerra. “A única coisa que eu arrisco dizer: o regime não vai ficar mais calmo do que era antes.”
Um resumo dos últimos acontecimentos da guerra:
Número de mortos: milhares. No Irã, foram ao menos 3.114, sendo 1.354 civis, segundo o grupo Hrana. Meios estatais iranianos falam em 1.270 mortos e a ONU, 1.332; No Líbano, 968 pessoas morreram; no Iraque ao menos 60; em Israel 15 civis e dois soldados; na Cisjordânia 3 civis; nos Emirados Árabes Unidos, 8 mortos; no Kuwait, 6; na Síria, 4 civis; em Omã, 2 civis; na Arábia Saudita, 2; no Bahrein, 2; os EUA perderam 13 soldados e a França, 1.
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Um episódio do podcast The Intelligence, da revista The Economist, trouxe uma abordagem interessante sobre os impactos dessa guerra na aviação mundial. O aumento do preço do combustível, a insegurança no Oriente Médio e o tempo de duração do conflito são fatores que influenciam nesse ponto. Fica a dica para vocês.
Cuba abre economia a emigrados em meio à crise energética e pressão dos EUA
O governo de Cuba anunciou novas medidas para permitir que cubanos no exterior invistam e participem da economia da ilha, em uma tentativa de aliviar a grave crise econômica, piorada com a interrupção do envio de petróleo ao país. A abertura inclui a possibilidade de emigrados - até aqueles que perderam o status de residência - serem sócios ou proprietários de empresas privadas, participarem do sistema financeiro nacional e acessarem projetos produtivos. A decisão ocorre em meio ao aumento da pressão de Washington sobre o governo de Miguel Díaz-Canel.
As medidas foram anunciadas durante um apagão generalizado na ilha essa semana e poucos dias após Díaz-Canel admitir negociações com os EUA, algo que vinha sendo negado. A crise energética se agravou drasticamente nos últimos meses, com escassez total de combustível, em parte devido à pressão americana sobre países que exportam petróleo para a ilha. Especialistas alertam que Cuba pode se aproximar de um ponto crítico, com risco de colapso energético e humanitário no curto prazo.
Experiências anteriores, como durante a reaproximação com os EUA no governo de Barack Obama, resultaram em perdas financeiras, expropriações e até prisões. Ainda não está claro quais garantias jurídicas e políticas serão oferecidas desta vez, nem até que ponto o governo cubano estará disposto a avançar em reformas mais profundas para atrair investimentos e evitar um agravamento da crise.
O secretário de Estado dos EUA, Marco Rubio, chamou as medidas anunciadas por Havana de insuficientes e reafirmou a determinação da Casa Branca em trabalhar por uma mudança de regime na ilha. Mais cedo, o presidente Donald Trump havia afirmado que seria uma “honra tomar Cuba”.
Em entrevista recente à Carta Global, o cônsul de Cuba em São Paulo, Benigno Pérez, afirmou que a grave crise pode levar a mortes na ilha, mas ressaltou que negociações com Washington não passam por discutir a soberania cubana. Na quarta-feira, a Rússia decidiu desafiar o bloqueio petroleiro americano e enviou a Cuba um navio com até 200 mil barris de petróleo, o suficiente para 10 dias. O carregamento deve chegar entre domingo e segunda-feira.
Venezuela troca comando militar em meio à nova relação com os EUA
A presidente interina da Venezuela, Delcy Rodríguez, destituiu o ministro da Defesa Vladimir Padrino López após quase 12 anos no cargo, encerrando um dos ciclos mais longos e estáveis do chavismo nas Forças Armadas. Padrino López será substituído por Gustavo González López, figura ligada aos serviços de inteligência e considerada próxima do núcleo mais duro do atual poder.
A troca ocorre em meio a uma ampla reconfiguração política após a captura de Nicolás Maduro pelas forças americanas e à crescente influência dos Estados Unidos no país.
Padrino López foi um dos principais pilares da sustentação do regime chavista até agora, garantindo a lealdade militar aos líderes durante anos de crise. Sua saída já vinha sendo pressionada internamente, diante do descontentamento crescente nas Forças Armadas com a falta de renovação na cúpula e bloqueios na progressão de carreira. O mal-estar se intensificou após a intervenção americana de janeiro, que expôs fragilidades na estrutura de segurança do governo e levantou questionamentos sobre a permanência de altos comandantes em seus cargos.
A nomeação de González López - sancionado pelos EUA e acusado de violações de direitos humanos - sinaliza continuidade no controle político sobre o aparato de segurança, mesmo no novo contexto de negociação com Washington. A mudança faz parte de uma reforma mais ampla do gabinete venezuelano, que inclui ajustes em áreas estratégicas como energia, transporte e trabalho.
Tensão entre Colômbia e Equador aumenta após acusações de ataques na fronteira
A crise entre Equador e Colômbia escalou nesta semana após acusações diretas entre os presidentes Gustavo Petro e Daniel Noboa. Petro afirmou que o território colombiano estaria sendo bombardeado a partir do Equador e citou a presença de 27 corpos carbonizados no território colombiano, enquanto Noboa negou e disse que as operações atingem apenas estruturas do narcotráfico dentro de seu próprio país.
Bogotá segue afirmando que o ataque a essas pessoas não partiu de nenhum grupo armado colombiano ou pelas forças de segurança e enfatizou que as armas que teriam sido usadas no ataque são produzidas pelos EUA. O Equador aceitou, então, montar uma comissão binacional para investigar o caso.
Com o tom cada vez mais elevado e acusações públicas, os canais diplomáticos entre os dois governos estão praticamente rompidos.
A tensão entre os dois países começou em janeiro, quando o Equador impôs tarifas sobre produtos colombianos, alegando falta de cooperação no combate ao narcotráfico na fronteira. A disputa comercial rapidamente se intensificou, com tarifas chegando a 50% dos dois lados e impactos diretos, inclusive no acesso a medicamentos no Equador. Paralelamente, surgiram relatos de bombardeios na região fronteiriça - alguns possivelmente realizados com apoio dos Estados Unidos -, embora a autoria siga sob investigação e cercada de incertezas.
Sem confirmação clara sobre os ataques, a crise ganhou contornos ainda mais complexos com a entrada indireta de Washington, visto como possível mediador ou ator ativo no conflito. Uma tentativa de mediação está prevista para o fim de março, mas, até lá, o cenário é de forte instabilidade e risco de agravamento de uma das mais graves crises recentes entre os dois países.
O Paraguai aprovou nessa semana a instalação de bases militares americanas em seu território. O Acordo do Estatuto das Forças, sancionado pelo presidente Santiago Peña, autoriza e regulamenta a presença temporária de pessoal civil e militar do Pentágono e de empresas americanas no país, para realizar atividades relacionadas à entrada de veículos, treinamento e exercícios militares.
O acordo foi aprovado três dias depois da participação de Peña na reunião de cúpula Escudo das Américas, iniciativa de segurança do hemisfério promovida pelo presidente Donald Trump. Um fator polêmico é que ações dos americanos em território paraguaio seriam respondidas perante à legislação dos EUA.
O fato preocupa o vizinho Brasil diante da possibilidade de os EUA classificarem os grupos criminosos PCC e CV como terroristas. Washington alega que os grupos têm ligações com o Hezbollah, que, segundo os americanos, atua na tríplice fronteira sul-americana (Brasil, Argentina e Paraguai).







