Acordo EUA e Irã: a derrota americana em um Oriente Médio instável
Pontos do Memorando assinado mostram concessões a Teerã no momento em que o governo Trump vinha muito pressionado internamente
Por Fernanda Simas
O Irã venceu a guerra. Essa é a conclusão após a divulgação do Memorando de Entendimento assinado entre Estados Unidos e Irã nesta semana - que deve se tornar um acordo definitivo após 60 dias. Após quase 4 meses de conflito, o governo de Donald Trump - pressionado internamente - fez concessões relevantes ao país persa que justificam a avaliação de analistas e historiadores.
Ao decidir atacar o Irã, sob o convencimento do primeiro-ministro isralense, Binyamin Netanyahu, o governo norte-americano tinha três objetivos principais: acabar com o programa nuclear iraniano, com o programa de mísseis balísticos iraniano e, em última instância, com o próprio regime dos aiatolás. O resultado, no entanto, foi um regime fortalecido e com uma nova perspectiva de controle sobre o Estreito de Ormuz - por onde passam 20% do petróleo mundial diariamente.
“Carl Von Kowitz, o teórico da guerra, cunhou a famosa frase ‘a guerra é a continuação da política por outros meios’. Portanto, uma guerra só existe quando um governo busca alcançar objetivos políticos que negociando não conseguiu”, explica o doutor em Ciência Política e professor de Relações Internacionais da ESPM-SP Gunther Rudzit. “O regime iraniano, entendendo essa lógica de que o centro de gravidade americano era economia e não a estrutura militar, fechou o Estreito de Ormuz, o que praticamente obrigou o governo Trump a aceitar essas negociações”.
Segundo o Memorando, o governo americano se compromete a disponibilizar integralmente os fundos e ativos do Irã bloqueados nos EUA em razão das sanções - uma das principais críticas de Trump ao acordo feito em 2015 entre Barack Obama e Teerã, que na época liberou cerca de US$ 1 bilhão -; os EUA se comprometem a encerrar todas as sanções, e até lá o Departamento do Tesouro determinará isenções para a exportação de petróleo iraniano; o urânio enriquecido não sairá mais do Irã e deve ser destruído internamente; os EUA se comprometem com um fundo de US$ 300 bilhões para a reconstrução e desenvolvimento econômico iraniano.
Além disso, ficou determinado que Teerã conduzirá um diálogo com Omã e outros países do Golfo Pérsico para definir a futura administração do Estreito de Ormuz; o Irã se compromete a não desenvolver ou adquirir armas nucleares - algo que já fazia desde o fim da década de 1970 -; e EUA, Irã e todos os seus aliados declaram o término imediato das operações militares em todas as frentes, mesmo no Líbano. Esse ponto é reforçado quando o memorando determina que os EUA devem garantir a integridade territorial e a soberania do Líbano. Por fim, EUA e Irã se comprometem a não interferirem mais em assuntos internos um do outro.
Para o governo Trump, era cada vez mais urgente encerrar a guerra. O conflito levou a uma alta no preço dos combustíveis e a uma consequente inflação nos EUA. “O americano é extremamente racional, apertou no bolso, ele vota na oposição”, afirma Rudzit.
Vale lembrar que uma das bandeiras que levaram o republicano de volta ao poder foi justamente reduzir a inflação e melhorar a condição de compra do norte-americano médio.
Em novembro, as eleições de meio de mandato serão determinantes para mostrar se o presidente dos EUA continuará tendo força para governar, mas as pesquisas vêm indicando uma baixa popularidade de Trump - na casa de 30% - e uma possível vitória dos democratas na Câmara dos Deputados. A própria base eleitoral Maga (Make America Great Again) rachou com esta guerra e um dos grandes entusiastas de Trump, Tucker Carlson, passou a fazer críticas ao republicano.
A estratégia iraniana
Por outro lado, o prolongamento da guerra era a vantagem que Teerã precisava. O regime dos aiatolás se preparou para esse conflito desde que chegou ao poder, em 1979, e sabia que militarmente não teria vantagem. Por isso, optou por uma guerra de desgaste, mas, principalmente, por fazer a economia global sofrer.
Antes da guerra, o regime dos aiatolás quase caiu com a situação econômica do país se deteriorando e a população realizou manifestações em massa. Algumas análises falam em até 30 mil mortos pelo regime na repressão aos protestos.
“Se um pouco antes dessa guerra, o regime iraniano estava quase caindo, agora isso é muito mais difícil. Por outro lado, essa revolta se deu por causa da situação econômica iraniana consequente da guerra de junho de 2025, que provocou muito menos destruição do que a atual”, afirma Rudzit. Agora, o Memorando se concretizando após 60 dias, é preciso ver como ficará a situação econômica e de vida dos iranianos para entender se a oposição ao regime vai se manter ou diminuir.
Existe, por outro lado, o impacto sobre um importante ator iraniano. Ainda sob o aiatolá Ali Khamenei, a Guarda Revolucionária do Irã ampliou seu poder político ao liderar iniciativas para projetar influência pelo Oriente Médio e reprimir dissidências. Desde o início da guerra, em 28 de fevereiro, quando ataques mataram Khamenei, a Guarda ampliou seu poder interno, ajudando a consolidar a ascensão de Mojtaba Khamenei como novo líder supremo.
Segundo uma reportagem da Reuters, a Guarda, considerada por Washington uma organização terrorista, pode ser muito beneficiada pelo acordo. Mesmo diante das sanções internacionais, a Guarda construiu um vasto império comercial que se estende dos setores de petróleo e construção até transporte marítimo, telecomunicações e operações portuárias.
Com a liberação de bilhões de dólares para o Irã, a Guarda deverá ser uma das principais beneficiárias da reabertura da economia iraniana ao investimento internacional. Isso porque a legislação iraniana sobre investimentos exige que empresas estrangeiras estabeleçam parcerias com atores locais. Como explica a Reuters, o grande número de companhias ligadas à Guarda faz com que ela se torne intermediária praticamente obrigatória para investidores interessados nos setores mais lucrativos da economia iraniana.
Fator Netanyahu
Algo mais incerto ainda será a situação de Israel. Neste momento, os interesses da administração Trump são opostos aos interesses de Israel e, principalmente, aos interesses de Netanyahu. O primeiro-ministro precisa da continuidade do conflito para se manter no poder - as eleições no país ocorrem no fim de outubro - e evitar, inclusive, uma provável prisão pelos dois processos que correm contra ele na Justiça.
Na sexta-feira, depois de uma nova escalada militar entre Israel e o Hezbollah, no sul do Líbano, os dois lados chegaram a um acordo de cessar-fogo. A questão é se ele será respeitado. Acordos de trégua anteriores, entre EUA e Irã, que deveriam abarcar o Líbano, foram desrespeitados pela administração Netanyahu.
O premiê chegou a afirmar que a situação libanesa faz parte da estratégia de defesa israelense. Para Rudzit, um agravamento no Líbano pode levar a outro tipo de enfrentamento. “Acho que o Irã pode atacar Israel. Não atacar os países do Golfo nem fechar Ormuz. E sem apoio americano, Israel tem uma capacidade bem mais limitada de conseguir fazer um estrago no Irã. Consegue atacar, mas não numa escala tão grande”.
Futuro do Oriente Médio
Desde os ataques terroristas do Hamas a Israel em 7 de outubro de 2023, umas das grandes perguntas é como ficaria o Oriente Médio. Agora, essa equação ficou ainda mais complexa diante da deterioração das relações entre EUA e países do Golfo.
“A base da estabilidade na região tinha o pressuposto de que a estrutura militar americana conseguiria proteger as monarquias do Golfo, mas a gente viu que não consegue”, explica o professor Rudzit. “A Arábia Saudita e as outras monarquias que ainda não reconheceram o Estado de Israel não vão reconhecer, por causa de Gaza, as monarquias do Golfo não veem o Irã como um país confiável, Israel e Irã continuam inimigos. Portanto, você tem um triângulo de inimizade muito grande. A instabilidade é muito maior hoje do que antes dessa guerra.”
Com o acordo entre Irã e EUA, Netanyahu se vê em situação delicada e pode voltar os esforços de guerra novamente para Gaza. O enclave palestino nunca saiu dos objetivos do atual premiê e ataques pontuais continuam ocorrendo enquanto o mundo voltava os olhos para a outra guerra.
Deixo aqui uma reportagem da Reuters sobre novos ataques israelenses contra Gaza, realizados após a assinatura do Memorando EUA-Irã, e uma reportagem do jornal El País sobre a expansão israelense sobre Gaza, Líbano e Síria desde 2023.
Cuba aprova reformas econômicas sem precedentes e amplia espaço para a iniciativa privada
O governo cubano anunciou um amplo pacote de 176 medidas econômicas que representa a mais profunda transformação do modelo adotado pela ilha desde as reformas iniciadas por Raúl Castro em 2011. As mudanças, aprovadas pela Assembleia Nacional do Poder Popular, ampliam a participação do setor privado na economia, autorizam a criação de instituições financeiras privadas, permitem investimentos particulares em empresas estatais e reduzem o alcance dos subsídios universais.
Entre as principais medidas está a transformação de empresas públicas em sociedades com possibilidade de participação acionária de pessoas físicas e empresas privadas. O governo afirma que manterá o controle dos setores considerados estratégicos, mas reconhece que companhias estatais deficitárias poderão passar por processos de reestruturação, falência ou liquidação.
O pacote também rompe o monopólio estatal do sistema financeiro ao autorizar instituições de capital privado, cooperativo e estrangeiro, além de permitir a oferta de microcrédito por entidades não bancárias supervisionadas pelo Banco Central de Cuba. As autoridades anunciaram ainda a criação de um mercado cambial digital e admitiram a realização de desvalorizações sucessivas do peso cubano.
As reformas chegam em meio à grave crise econômica enfrentada pelo país, com escassez de produtos, queda das receitas em moeda estrangeira, dificuldades energéticas e aumento da pressão internacional. O governo cubano atribui parte das dificuldades às sanções impostas pelos Estados Unidos, mas também reconheceu problemas internos na condução da economia.
O pacote prevê ainda mudanças significativas para as micro, pequenas e médias empresas (Mipymes). Será permitida a ampliação do número de funcionários, a participação de um mesmo empresário em mais de uma companhia e a redução das atividades proibidas ao setor privado. No campo, produtores poderão obter direitos de uso da terra por prazo indeterminado e atuar em segmentos antes reservados ao Estado.
Uma das mudanças de maior impacto social será o fim gradual dos subsídios universais. Serviços e produtos como eletricidade, água, transporte e combustíveis passarão a refletir mais diretamente seus custos reais. Em contrapartida, o governo pretende criar mecanismos de assistência para famílias consideradas vulneráveis.
No mercado de trabalho, as empresas ganharão maior autonomia para negociar salários, contratar funcionários e realizar demissões por razões econômicas, mediante pagamento de indenizações. O governo também busca criar incentivos para reter profissionais qualificados em um contexto de forte emigração de trabalhadores cubanos.
Apesar da profundidade das mudanças, o presidente Miguel Díaz-Canel afirmou que as reformas não representam uma renúncia ao socialismo, mas uma adaptação do modelo econômico às circunstâncias atuais. Analistas consideram que as medidas marcam uma abertura sem precedentes à lógica de mercado em um país que, por décadas, manteve uma economia fortemente centralizada e controlada pelo Estado.
Rússia enfrenta um dos maiores ataques de drones da guerra e vê conflito se aproximar do cotidiano em Moscou
A Ucrânia realizou nesta semana um dos maiores ataques com drones contra Moscou desde o início da guerra, atingindo a refinaria de petróleo da capital russa, responsável por cerca de um terço do abastecimento de combustíveis da cidade. Segundo o Ministério da Defesa russo, 555 drones foram interceptados, dos quais 194 tinham Moscou como alvo. Apesar da intensidade da ofensiva, não houve registro de vítimas. O ataque faz parte da estratégia ucraniana de atingir a infraestrutura energética russa, considerada fundamental para financiar o esforço de guerra do Kremlin.
Além dos danos à refinaria, os ataques têm provocado impactos crescentes na rotina dos russos. Restrições no espaço aéreo de Moscou provocam frequentes interrupções em voos domésticos, enquanto problemas de abastecimento de combustíveis já afetam dezenas de regiões do país. Autoridades russas adotaram medidas para limitar a venda de gasolina e diesel em diversas províncias, numa tentativa de evitar maiores dificuldades logísticas.
O episódio também evidencia como a guerra, que durante anos permaneceu distante do cotidiano da maioria dos moradores da capital russa, passou a ser sentida de forma mais direta. Moradores relataram preocupação com a frequência dos ataques e com a possibilidade de uma escalada do conflito.
Pesquisas recentes indicam que a maioria dos russos continua apoiando as ações militares do país na Ucrânia, embora também exista um desejo crescente por negociações de paz. O aumento dos ataques em território russo reforça a percepção de que a guerra entrou em uma nova fase, na qual seus efeitos se tornam cada vez mais visíveis para a população civil.
Pashinyan vence na Armênia e reforça aproximação com o Ocidente
O primeiro-ministro armênio, Nikol Pashinyan, venceu as eleições parlamentares da Armênia novamente. Seu partido obteve 49,8% dos votos, garantindo a permanência no poder em uma eleição marcada pela disputa entre o projeto de aproximação com o Ocidente defendido pelo governo e uma oposição alinhada à Rússia.
Apesar da vitória, Pashinyan registrou um desempenho inferior ao de 2021, quando havia conquistado 54% dos votos. Os principais partidos opositores somaram cerca de 37% dos sufrágios e também estarão representados no Parlamento. O principal bloco adversário foi a coalizão liderada pelo empresário russo-armênio Samvel Karapetyan, que recebeu pouco mais de 23% dos votos.
Ao celebrar o resultado, o premiê afirmou que os eleitores optaram pela continuidade da agenda de aproximação com Europa e Estados Unidos, sem romper completamente os laços com Moscou. Pashinyan também reiterou o compromisso de avançar nas negociações de paz com o Azerbaijão e de promover reformas políticas internas.
A vitória foi recebida com entusiasmo por líderes europeus. Ursula von der Leyen afirmou que a União Europeia continuará apoiando uma Armênia “cada vez mais próxima da Europa”. Já o presidente francês, Emmanuel Macron, felicitou Pashinyan e defendeu o fortalecimento da cooperação bilateral.
Reta final da eleição presidencial na Colômbia segue mais disputada do que indicam pesquisas
A poucos dias do segundo turno presidencial na Colômbia, as campanhas de Abelardo de la Espriella, candidato da extrema direita, e de Iván Cepeda, candidato governista de esquerda, avaliam que a disputa está mais apertada do que sugerem as pesquisas. Embora os levantamentos divulgados antes do período de silêncio eleitoral apontassem vantagem para De la Espriella, que venceu o primeiro turno por uma diferença de cerca de 632 mil votos, os dois grupos políticos trabalham com a possibilidade de uma mobilização decisiva de eleitores indecisos, abstencionistas e apoiadores de outros candidatos.
Na campanha de De la Espriella, o principal temor é que o sentimento de vitória antecipada desestimule seus eleitores a comparecer às urnas. O desempenho da votação no exterior, iniciada nesta semana, acendeu sinais de alerta após registros de participação abaixo da esperada - algo que já vimos na eleição peruana e pode ser decisivo. A equipe do candidato também acompanha com atenção os cerca de 80 mil colombianos que viajaram para acompanhar a seleção durante a Copa do Mundo e que podem influenciar o resultado eleitoral.
Do lado de Cepeda, a estratégia tem sido ampliar sua presença digital e buscar apoio entre jovens, movimentos sociais, eleitores de centro e cidadãos que não votaram no primeiro turno. Nas últimas semanas, o candidato procurou se distanciar do presidente Gustavo Petro em temas sensíveis e reforçou uma imagem mais moderada para conquistar setores indecisos do eleitorado.
Enquanto Cepeda tenta ampliar sua base de apoio, De la Espriella manteve a estratégia adotada desde o primeiro turno, com forte presença nas redes sociais e apoio público de lideranças internacionais como Donald Trump e o argentino Javier Milei.






