Colômbia elege novo governo entre avanços sociais, crise na saúde e paz incompleta
Petro deixará o cargo com alta popularidade após fazer governo inclusivo e aumentar o salário mínimo, mas deixa fracassos para serem contornados
Por Fernanda Simas
Neste domingo, a Colômbia começa a decidir seu próximo governo, um governo que terá de enfrentar dificuldades fiscais, um sistema de saúde sobrecarregado e um processo de paz incompleto. Mas que receberá uma Colômbia muito distinta da de 2022, que absorveu diferentes visões políticas sobre como solucionar problemas estruturais e viu as instituições democráticas se manterem sólidas.
Há 10 anos, o clima no país era de esperança por conta do acordo de paz entre o governo do então presidente Juan Manuel Santos e as Farc (Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia), a principal guerrilha do país. Dois anos depois, a euforia deu lugar às dificuldades de implementação dos termos do acordo com a vitória do conservador Iván Duque.
Uma pandemia de Covid-19 e a eleição, em 2022, do primeiro presidente de esquerda na história recente do país, mudou novamente o cenário e, em meio a esperanças de uma retomada do processo de paz, o medo de uma ruptura democrática cercou os últimos quatro anos. Mas as instituições colombianas seguem funcionando e o país, polarizado e com medo da violência contínua, também passou a dar importância, nestas eleições, a um tema inédito: a saúde.
Segundo uma pesquisa de fevereiro da empresa Guarumo, 25% dos colombianos acreditam que o problema mais grave do país é a saúde, mais do que os 15,9% que citaram a segurança. O novo governo - que deve ser decidido em junho, após o segundo turno - terá de enfrentar um sistema sobrecarregado, que acumula atrasos em consultas e entrega de medicamentos.
Desde os anos 1990, a Colômbia deixou a gestão da saúde pública para empresas privadas ou públicas - as EPS - às quais os colombianos se associam e que recebiam dinheiro do Estado e o distribuíam entre médicos, hospitais e medicamentos.
O presidente Gustavo Petro retirou o financiamento do sistema e decidiu destinar a verda para outros setores de saúde, como a melhoria de hospitais públicos e um programa de envio de médicos até a casa das pessoas para trabalhar na prevenção de doenças mais comuns. Além disso, ele tentou emplacar uma reforma de Saúde que o Congresso bloqueou.
O governo passou a enviar dinheiro direto a clínicas e tomou o controle de dezenas de EPS com a promessa de corrigir o que chamava de má gestão privada. Mas, agora, as EPS acumulam dívidas de mais de 25 milhões de pesos com hospitais e clínicas.
Violência e conflitos
Em segundo lugar entre as preocupações dos colombianos está a segurança. O medo das guerrilhas e dissidências das Farc continua. Em Catatumbo, região fronteiriça com a Venezuela, por exemplo, mães estão parindo dentro de casa por medo da violência nas ruas, bebês ficam meses sem registro, camponeses temem pisar em minas terrestres e crianças se escondem ao ver drones.
O vácuo deixado pelo desmantelamento das Farc agora é motivo de disputa territorial entre grupos criminosos menores. Segundo analistas colombianos, o país deixou para trás décadas de uma guerra civil sangrenta e passou a viver um contexto de violência mais presente na América Latina, com a disputa pelo tráfico de cocaína e outros domínios territoriais.
Petro foi eleito prometendo a paz total e abriu negociações com diversos grupos armados, mas não conseguiu mantê-las em razão de dificuldades políticas e da continuidade de ataques e sequestros por parte do ELN (Exército da Libertação Nacional), por exemplo. Ainda assim, o processo avançou.
“Não iria ser um processo fácil e os obstáculos estruturais fazem com que a implementação seja demorada e gradual”, explica Mário Braga, analista de geopolítica da RANE. “O acordo de paz (de 2016) em si não acaba com o problema mais amplo de haver dissidências e outros grupos”, complementa sobre o contexto do país.
Além da violência urbana, a Colômbia viveu uma campanha presidencial violenta, com a morte, ainda em 2025, do pré-candidato Miguel Uribe Turbay. Nos cinco primeiros meses de 2026, foram registrados 54 massacres com 233 mortes. Enquanto isso, aumenta o recrutamento feito por grupos narcos, guerrilheiros e paramilitares. E as maiores vítimas são os menores de idade.
Esse foi um dos pontos mais abordados pelos três principais candidatos à presidência. O governista Iván Cepeda, senador de esquerda, deseja seguir com o plano de diálogos de Petro, dando oportunidades para que o crime não seja a melhor opção para tantos jovens colombianos.
Abelardo de la Espriella, advogado que representa a extrema direita e se apresenta como outsider, promete um plano de 90 dias com ofensiva aérea respaldada pelos EUA e por Israel, erradicação forçada de coca e a construção de 10 mega prisões de segurança máxima - um plano a la Nayib Bukele.
E Paloma Valencia, a senadora do Centro Democrático, representante da direita tradicional, propõe reativar as políticas de seu mentor político, Álvaro Uribe, cujo mandato ficou marcado por derrotas das Farc e os massacres de paramilitares.
Economia: um desafio latino-americano
A Colômbia chega a essa eleição tendo na economia o mesmo desafio que permeia tantos países da América Latina: baixa produtividade, dívida alta e alta informalidade. As contas públicas enfrentam um déficit de 6,4% do PIB, a dívida colombiana está em seu nível mais alto em 20 anos: 58%, e mais da metade dos colombianos trabalham na informalidade.
Por outro lado, a pobreza multidimensional caiu 23% nos últimos quatro anos e o desemprego chegou ao menor nível desde 2001. “Não podemos negar o importante avanço na taxa de desemprego, que era um desafio importante”, afirma Carlos Sepulveda, economista e professor da Universidade Rosario. A preocupação dele, no entanto, vem da qualidade desse emprego, já que, por um lado há um estancamento da estrutura trabalhista informal, e por outro houve um aumento significativo do emprego público. “Quando excluímos o setor público, 4 de cada 5 empregos novos são de setores informais.”
O aumento de cargos públicos contribui para o aumento dos gastos públicos. E isso terá impacto no endividamento colombiano. Sepulveda considera que um dos grandes ativos do governo Petro foi gerar gastos com impacto social, o problema foi não conseguir fazer isso de forma sustentável.
Outro ponto importante que terá de ser trabalhado na nova gestão - que assume em agosto - é o baixo investimento estrangeiro na Colômbia. Os investimentos internacionais caíram 14% entre 2020 e 2025. “Esse é o motor de crescimento em longo prazo, causa um dano estrutural”, afirma Sepulveda.
Reta final
As últimas pesquisas mostraram Cepeda na frente, com De la Espriella logo atrás. A direita chegou a essa eleição fragmentada entre o discurso de recuperar as políticas conservadoras tradicionais de Valencia e o discurso de ruptura total de La Espriella.
O candidato governista aproveita a alta popularidade de Petro, principalmente por conta do aumento do salário mínimo em 23% e de ter conseguido se mostrar alguém capaz de levar ao centro do poder populações antes marginadas.
“Chegamos no final desse mandato com as instituições garantindo o que deve ser uma transição ordenada”, afirma Braga, da RANE.
Deixo aqui a indicação de um podcast colombiano que aborda, todos os dias, algum tema importante em discussão no país. Para quem quiser se aprofundar na visão de jornalistas e analistas colombianos sobre o que vem ocorrendo em nosso vizinho, acesse o Huevos Revueltos con Política.
Epidemia de Ebola na República Democrática do Congo preocupa OMS
O surto de ebola na região leste da República Democrática do Congo já deixou ao menos 220 mortos e mais de 900 casos suspeitos, segundo autoridades sanitárias. A situação se agravou após a morte de profissionais de saúde que atuavam diretamente no combate à doença.
A Organização Mundial da Saúde (OMS) alertou que as mortes entre trabalhadores da saúde indicam falhas na contenção da epidemia. O diretor-geral da entidade, Tedros Adhanom Ghebreyesus, afirmou que a resposta ao surto enfrenta dificuldades por causa da detecção tardia dos primeiros casos, da falta de equipamentos adequados e da escassez de recursos nos hospitais locais.
Segundo a OMS, os testes iniciais deram negativo porque os laboratórios da região não possuíam reagentes para identificar a variante Bundibugyo, menos comum que a cepa Zaire. Muitos pacientes foram inicialmente diagnosticados com malária ou febre tifoide, o que atrasou o isolamento dos casos.
O avanço da doença levou autoridades locais a impor restrições em diversas cidades do leste congolês. Velórios foram proibidos, o transporte de corpos entre localidades foi suspenso e voos comerciais para Bunia foram cancelados. Em algumas regiões, escolas e serviços continuam funcionando sob medidas sanitárias reforçadas.
A crise é agravada pelo conflito armado no leste do Congo. Tedros classificou o cenário como uma “convergência catastrófica entre epidemia e guerra”, afirmando que os confrontos dificultam o acesso humanitário, o rastreamento de contatos e o isolamento de pacientes. A OMS pediu um cessar-fogo imediato para permitir a atuação segura das equipes médicas.
Guerra no Irã: Negociações incertas e troca de acusações
As negociações entre Estados Unidos e Irã para encerrar a guerra iniciada há três meses seguem cercadas de incertezas, desmentidos e pressões políticas. Um alto funcionário da Casa Branca afirmou na quinta-feira que os dois países teriam alcançado um princípio de acordo para ampliar o atual cessar-fogo por mais 60 dias, reabrir o Estreito de Ormuz e iniciar conversas sobre o programa nuclear iraniano. Teerã, no entanto, negou que qualquer texto tenha sido finalizado.
Segundo as informações divulgadas em Washington, o memorando incluiria a retirada gradual das minas colocadas pelo Irã em Ormuz - algo que Teerã já afirmou que levaria ao menos 30 dias -, o levantamento parcial do bloqueio naval americano e algumas flexibilizações nas sanções para permitir a exportação de petróleo iraniano. Também haveria o compromisso iraniano de não desenvolver armas nucleares e o início de discussões sobre o destino do urânio enriquecido armazenado nas instalações bombardeadas pelos EUA em 2025.
Segundo a própria Casa Branca, a confirmação depende da decisão final do presidente Donald Trump. O republicano já mudou de posição diversas vezes sobre o tema e busca um entendimento que possa apresentar como vitória política em meio à queda de popularidade causada pela guerra, pela inflação e pela alta do preço dos combustíveis.
Enquanto isso, os confrontos militares continuam. Nas últimas horas, forças americanas interceptaram drones iranianos próximos ao estreito de Ormuz e bombardearam uma instalação militar no sul do Irã. Em resposta, Teerã lançou um míssil balístico contra o Kuwait, interceptado pelas forças locais e americanas. Os episódios reforçam a fragilidade do cessar-fogo em vigor desde abril e mostram que, apesar das negociações, o risco de uma nova escalada militar permanece elevado.
Netanyahu afirma que controlará 70% de Gaza
O governo de Binyamin Netanyahu ampliou sua pressão sobre a Faixa de Gaza em meio ao impasse nas negociações com o Hamas e às crescentes críticas internacionais. Nesta semana, Netanyahu ordenou ao Exército a expansão do controle territorial sobre o enclave palestino para 70%, acima dos quase 60% atuais. A medida representa uma nova escalada militar apesar do cessar-fogo firmado em outubro, que previa a retirada das tropas para áreas equivalentes a aproximadamente 53% do território.
O premiê afirmou que a expansão busca aumentar a pressão sobre o Hamas, que continua controlando parte da faixa, onde vivem cerca de dois milhões de palestinos. O grupo acusou Israel de violar os termos do cessar-fogo e de dificultar qualquer avanço nas negociações.
Desde a entrada em vigor da trégua, o Ministério da Saúde de Gaza afirma que mais de 900 pessoas morreram em ataques israelenses. Apenas nesta semana, Israel anunciou a eliminação de comandantes do braço militar do Hamas em operações realizadas em áreas densamente povoadas.
Paralelamente, a Marinha israelense interceptou na segunda-feira parte da chamada Global Sumud Flotilla, uma missão internacional que tentava chegar a Gaza com ajuda humanitária e denunciar o bloqueio imposto por Israel ao território. Segundo os organizadores, cerca de 30 das 54 embarcações foram abordadas em águas internacionais.
As autoridades israelenses justificaram a ação afirmando que a flotilha buscava romper o isolamento imposto ao Hamas. Já o governo da Espanha protestou formalmente contra a interceptação, considerada ilegal por Madri, e exigiu a libertação imediata dos ativistas detidos. A França também protestou contra a medida israelense.
Papa Leão XIV lança sua primeira encíclica e concentração de poder em razão da IA
O papa Leão XIV lançou nesta semana sua primeira encíclica, intitulada Magnífica humanidade (Magnifica humanitas), um documento de forte teor político e ético centrado nos impactos da inteligência artificial, das novas tecnologias e do avanço de correntes transhumanistas ligadas ao Vale do Silício. Com o subtítulo “Sobre a custódia da pessoa humana no tempo da inteligência artificial”, o texto de 110 páginas defende a necessidade de preservar aquilo que torna o ser humano essencialmente humano diante do avanço tecnológico.
Ao longo da encíclica, o pontífice criticou a concentração de poder nas grandes empresas de tecnologia e alertou para os riscos de manipulação política, econômica e social por meio dos algoritmos. Leão XIV defende que os Estados assumam um papel mais ativo na regulação da inteligência artificial, da propriedade dos dados e das plataformas digitais.
O documento também aborda temas como desinformação, polarização nas redes sociais, perda da memória histórica, impactos ambientais da tecnologia, precarização do trabalho e riscos do uso militar da inteligência artificial. Em uma referência indireta ao governo de Donald Trump e aos setores mais radicais da direita mundial, Leão XIV critica o que chama de “extremismos religiosos”, “fanatismos identitários” e a lógica do “direito do mais forte”.
O papa também confronta diretamente teorias transhumanistas e pós-humanistas associadas a nomes influentes do setor tecnológico, como Elon Musk e Peter Thiel. Para Leão XIV, a inteligência artificial “não é moralmente neutra” e precisa ser “desarmada”, evitando que se transforme em instrumento de dominação econômica, política e militar.
A encíclica ainda dedica espaço às desigualdades sociais, imigração, exploração de trabalhadores invisíveis da economia digital e ao impacto do capitalismo sobre países mais pobres. O papa defende políticas públicas de redistribuição de renda, fortalecimento da educação pública, tributação mais progressiva e proteção aos migrantes e refugiados. Também critica o chamado “novo colonialismo digital”, baseado na exploração de dados e na dependência tecnológica.
Leão XIV também alerta para os efeitos do uso excessivo de celulares e redes sociais entre crianças e adolescentes, defendendo maior controle público sobre plataformas digitais. Ao final, o pontífice propõe cinco caminhos para enfrentar os desafios do atual cenário global: “desarmar as palavras”, construir a paz, ouvir as vítimas, recuperar o diálogo e fortalecer o multilateralismo internacional.
Outros dois pontos que chamaram a atenção foram o agradecimento explícito à imprensa pelo papel na revelação dos casos de abuso sexual dentro da Igreja Católica — algo inédito em uma encíclica -, e ter feito, durante o lançamento da encíclica, um pedido de desculpas formal em nome da Igreja pela falta de condenação firme da escravidão.
Mais um passo de Washington em direção a Cuba
Mais uma vez, Cuba está na mira direta dos Estados Unidos. A administração Trump indiciou nessa semana o ex-presidente Raúl Castro, de 94 anos, pela derrubada de dois aviões em 1996 da organização Hermanos al Rescate.
Na ocasião, Raúl era ministro da Defesa. Dois americanos morreram na ação. Entre a troca de acusações de Havana e Washington, a determinação na época foi que o caso havia ocorrido em águas internacionais.
Essa decisão vem no contexto de fim das reservas de petróleo de Cuba, após a visita do diretor da CIA à ilha e uma constante pressão para uma mudança do governo cubano.
Miguel Díaz-Canel, o presidente cubano, afirmou que a soberania do país não está em jogo. Mas com o indiciamento, o governo Trump determina uma razão para uma eventual interferência, assim como ocorreu na Venezuela. Com certeza, esse assunto está longe de seu fim.






