Cuba sob pressão: cônsul vê risco de mortes e rejeita negociar soberania
Em entrevista, representante da ilha em São Paulo afirma que restrições americanas atingem o coração da economia cubana
Por Fernanda Simas
Desde o sequestro de Nicolás Maduro em uma operação militar americana na Venezuela, analistas discutem o que pode acontecer com Cuba. Desde seu primeiro mandato, Donald Trump fala em uma mudança de regime na ilha.
O governo cubano sobreviveu à queda da União Soviética, à morte de Fidel Castro, ao bloqueio econômico e outras tantas sanções impostas por 13 presidentes americanos ao longo de décadas. Mas, o estrangulamento econômico que Washington impõe agora não tem precedentes e pressiona fortemente Havana.
Desde a pandemia de Covid-19, o turismo - principal atividade econômica em Cuba - não retomou os índices anteriores e a ilha vinha vivendo de suas reservas. Com a queda de Maduro, o petróleo venezuelano deixou de ser enviado a Cuba e, em 29 de janeiro, Trump assinou um decreto determinando sanções a qualquer país que enviasse petróleo à ilha.
O México, segundo país que mais envia petróleo a Cuba, tem sofrido forte pressão de Washington. Nesta semana, a presidente Claudia Sheinbaum anunciou o envio de carregamentos de ajuda humanitária à ilha.
“É claro que isso tem consequências muito duras para a nossa economia. Hoje, não há nenhum país que consiga viver sem eletricidade e sem combustível”, contou à Carta Global o cônsul de Cuba em São Paulo, Benigno Pérez. Sem combustível, Cuba vê serviços pararem, blackouts mais prolongados, lixo se acumular nas ruas e o turismo ficando ainda mais distante.
Leia a entrevista:
Como está o processo de asfixia econômica que o governo Donald Trump está impondo à ilha?
Bom, não é novo. É uma política que já tem 65 anos. Agora, com a chegada de um grupo fascista ao governo dos EUA, parecido com o que chegou ao poder na Alemanha no início da década de 1930, a situação é muito perigosa, e para todos. Com Cuba há uma espécie de vingança, mas isso ocorre também com o México, o Canadá, a Groenlândia e a China.
Vimos o que aconteceu com a Venezuela. O que o governo dos EUA e seus militares estão fazendo no Caribe e no Pacífico, bombardeando pequenas embarcações, não tem outro nome senão assassinato. Por que não os prendem e os levam a julgamento?
Em 29 de janeiro Trump assinou uma ordem executiva para sancionar todo país que venda petróleo a Cuba, sob o argumento de que Cuba representa uma “ameaça incomum e extraordinária” à segurança nacional americana. É claro que isso tem consequências muito duras para a nossa economia. Hoje, não há nenhum país que consiga viver sem eletricidade e sem combustível. Isso nos criou muitas dificuldades, além daquelas que já tínhamos.
Como quais?
A agressão contra o combustível em Cuba não começou em 29 de janeiro nem em dezembro, para impedir que os navios de petróleo da Venezuela chegassem a Cuba. Começou em 2019, com medidas econômicas para dificultar a compra e a venda de combustíveis entre Cuba e o resto do mundo.
Isso nos obrigou a adotar medidas como pagar mais caro pelo combustível, gerando dificuldades adicionais que depois se agravaram com a Covid-19. Em Cuba, a principal fonte de renda econômica é o turismo. Fechamos as fronteiras para proteger a população e tivemos cerca de 3.000 mortos. Isso teve um impacto muito sério na economia, porque passamos a viver das reservas. Além disso, coincidiu com o fato de Trump nos ter recolocado na lista de países patrocinadores do terrorismo.
Existe um memorando de 1960 — mantido sob sigilo por décadas — que resume a essência da política dos EUA em relação a Cuba. Na sua última linha, diz que o objetivo é provocar fome, desespero e a derrubada do Estado. Esse continua sendo o objetivo.
Isso pode gerar uma crise humanitária. Podem morrer pessoas que precisem de uma cirurgia se os hospitais não puderem funcionar; alguém que necessite de atendimento médico pode não chegar ao hospital por falta de combustível. A lista seria muito longa.
O mundo viu uma crise humanitária talvez pior em Gaza e nada aconteceu. Poucos países levantaram a voz. Em Cuba começa a acontecer algo parecido. Ainda não há bombas, mas pode haver mortos, apesar de o governo ter tomado medidas para evitar isso. Recebemos muita solidariedade de quase todos os povos do mundo, inclusive do povo norte-americano.
Li que um grupo de artistas famosos de Hollywood divulgou uma declaração para que isso pare. Eles não estão defendendo o governo cubano, mas um princípio humanitário. Essa última ação do governo Trump coloca à prova os governos do mundo.
Como está a situação na aviação?
É público que Cuba está sem combustível suficiente para abastecer as aeronaves que chegam por turismo. Prejudicar o turismo é atingir o coração da economia cubana. Estamos buscando alternativas e dialogando com todas as companhias aéreas. Algumas reagiram bem, como a Aeroméxico, que pode abastecer em seu próprio país. Outras estão buscando opções, como a Air Europa, que vai reabastecer na República Dominicana. Vai custar um pouco mais, mas os voos serão mantidos.
O Canadá também está buscando alternativas, já que entre 30% e 40% do turismo em Cuba vem desse país. No Brasil, não há maiores problemas, porque existem conexões com a Copa Airlines via São Paulo ou Brasília.
Aqui no Brasil, aliás, há um movimento social forte pedindo ao governo o envio de petróleo a Cuba. Isso é de agradecer. Não se trata de esquerda ou direita, mas de defender princípios de autodeterminação, independência e o direito de cada país decidir com quem comercializa.
Ninguém, nem os EUA nem qualquer outro país, tem o direito de sancionar quem vende milho à China ou petróleo à Rússia. São princípios do multilateralismo surgidos após a Segunda Guerra Mundial que hoje estão sendo pisoteados.
Na Venezuela, está claro que houve uma mobilização dentro do chavismo pela queda de Nicolás Maduro. Como Cuba lida com a possibilidade de uma situação parecida?
Olhamos para o que aconteceu na Venezuela, mas quem somos para opinar? A história vai registrar isso no seu tempo. Fizemos o que tinha que ser feito. Morreram 32 cubanos que faziam parte da segurança do presidente Maduro. E, de tudo o que houve de ruim na morte desses 32, o “lado bom” é que os americanos sabem que, em Cuba, vão encontrar combatentes. Houve combate intenso. E é isso que vão encontrar em Cuba no dia em que tiverem a ideia de entrar militarmente.
Desde o século XIX, com José Martí, temos de lutar contra os grandes. Houve um secretário de Estado norte-americano, John Quincy Adams, que desenhou a política em relação a Cuba que a história conhece como a “política da fruta madura”, segundo a qual Cuba deveria cair sob a influência dos EUA como uma fruta madura cai ao chão. Isso não foi apenas escrito, foi aplicado ao longo de toda a história.
Houve uma forte migração nos últimos anos. Os cubanos, em uma crise econômica, têm o direito de decidir onde viver. Não os consideramos inimigos. Outra coisa são os anexionistas que pedem uma invasão estrangeira: aí há um problema de patriotismo. Há limites para a oposição política. Pode-se ser contra o governo, mas pedir uma invasão é colocar em risco o próprio povo. As bombas não são dirigidas apenas contra os comunistas; elas matam qualquer pessoa.
Não queremos a guerra. Ninguém ganha em uma guerra, e muito menos nós, que lutaríamos contra a maior potência militar do mundo. Mas não estamos dispostos a permitir que venham transformar Cuba em um protetorado. Podemos ter relações normais com os EUA. Demonstramos isso durante o governo de Barack Obama, quando houve visita oficial, diálogo e acordos.
Miguel Díaz-Canel não é Fidel nem Raúl Castro. Como o governo atual busca unir a população?
Há uma frase de um ex-presidente argelino, Abdelaziz Bouteflika, que dizia: “Fidel viaja ao futuro, volta e conta”. Fidel Castro é um gênio da política. Claro que ninguém em Cuba tem a autoridade que ele tinha.
Mas Díaz-Canel é um dirigente preparado: engenheiro, professor universitário, ex-ministro do Ensino Superior, foi dirigente da Juventude Comunista e secretário do partido. Tem experiência e talento para governar, mas teve de governar em condições extremamente difíceis: sanções, furacões e pandemia.
Em Cuba, governa o Partido. Nem todos concordam com a Revolução, mas o Partido e a Revolução contam com o apoio majoritário da população; caso contrário, não existiriam. Em condições muito difíceis, cerca de 80% da população participa das eleições. Vamos lutar, que ninguém duvide. Em Cuba não há traição.
Há duas formas de deter o fascismo nos EUA. Uma é por meio de guerras. A outra é a sociedade norte-americana. Acredito que só ela pode frear o comportamento fascista que se vê todos os dias, contra um jornalista que diz algo, contra o Bad Bunny agora, por exemplo.
Que medidas concretas estão sendo tomadas no dia a dia em Cuba?
A principal é a economia de energia. Ministérios e locais de trabalho operam com o mínimo de pessoas. Há pouquíssimo transporte público. Não se vende gasolina ao público; o combustível é destinado a serviços essenciais: produção de alimentos, indústrias, hospitais e transporte de alimentos.
Estamos dialogando com China e Rússia. Há coisas que não podem ser detalhadas publicamente.
Como estão a educação e a saúde?
Sofrem muito. Já havia escassez de medicamentos e agora pode piorar. As universidades funcionam de forma virtual. As escolas primárias seguem abertas quando o professor e os alunos moram perto. O turismo continua, mas os eventos estão sendo suspensos por falta de combustível. Tentamos fazer o país funcionar até onde é possível.
Vocês acreditam que a Rússia vai ajudar, considerando a guerra na Ucrânia?
Rússia e China disseram publicamente que vão ajudar. Como, eu não sei. E, mesmo que soubesse, não poderia dizer, ou nossos vizinhos tentariam impedir.
Houve uma notícia de que Díaz-Canel estaria disposto a dialogar com os Estados Unidos. Há margem para negociação?
Cuba não impôs um bloqueio aos EUA. Podemos oferecer investimentos, turismo, cooperação em segurança e no combate ao narcotráfico, permitindo que os americanos usufruam de nossos avanços tecnológicos e até fumem nossos charutos. Isso não é novidade: já houveram acordos no passado.
O que não aceitamos é negociar soberania, independência ou o sistema social cubano. Barack Obama não queria apoiar o socialismo em Cuba, mas também não falava como Trump: “rendam-se, seus dias estão contados”.
Algumas análises afirmam que Cuba tem cerca de três meses antes de colapsar.
No início dos anos 1990, com a queda da União Soviética — com a qual tínhamos mais de 80% do nosso comércio exterior —, ninguém acreditava em nós. Cuba resistiu, e segue resistindo agora graças à solidariedade internacional.
A tensão entre EUA e Cuba ficou ainda mais tensa nesta semana, quando agentes da Guarda Costeira cubana mataram quatro tripulantes a bordo de uma lancha com registro nos Estados Unidos em um confronto. Segundo Havana, a embarcação planejava uma infiltração e seus tripulantes atiraram contra os agentes. Ao menos um cidadão americano está entre os mortos.
“Desde o primeiro momento, ao ser detectado que o meio naval procedia do território dos Estados Unidos, as autoridades cubanas mantiveram comunicação sobre esta tentativa terrorista com suas contrapartes norte-americanas, incluindo o Departamento de Estado dos Estados Unidos e a Guarda Costeira dos Estados Unidos”, afirmou o Ministério de Relações Exteriores de Cuba, em uma nota. “Está em curso um processo investigativo com o objetivo de esclarecer os fatos com todo o rigor. O governo cubano manifesta disposição para dialogar com o governo dos Estados Unidos sobre este episódio.”
O secretário de Estado americano, Marco Rubio, classificou o caso de incomum e disse que as conclusões não serão tomadas com base na versão cubana.
Abaixo um vídeo publicado pelo jornal El País com algumas reações de cubanos ao saber da notícia:
Governo Milei tem vitória com aprovação de reforma trabalhista
A Argentina aprovou uma ampla reforma trabalhista esta semana, reforma que vinha sendo impulsionada pelo presidente Javier Milei e torna as regras mais favoráveis às empresas. O Senado validou a “Lei de modernização trabalhista” após uma sessão tensa, marcada por protestos e forte presença policial.
A reforma flexibiliza contratações, barateia demissões, permite jornadas de até 12 horas diárias, torna opcional o pagamento de horas extras e reduz encargos patronais. O governo Milei defende que as mudanças modernizam o mercado de trabalho formal, mas críticos alertam que o impacto positivo depende da retomada do crescimento econômico.
A nova lei altera a legislação vigente desde 1974, período do peronismo, e reduz o poder dos sindicatos ao impor serviços mínimos de 75% em setores considerados essenciais — como saúde, educação, transporte, energia e água — limitando o alcance das greves. Também enfraquece convenções coletivas por setor ao privilegiar acordos individuais por empresa. Um dos pontos mais polêmicos é a criação de um fundo de indenizações administrado por bancos e entidades financeiras, financiado com recursos que antes iam para a Agência Nacional de Previdência Social, o que, segundo a oposição, ameaça o financiamento das aposentadorias.
A aprovação foi uma das principais apostas do governo, que cedeu em alguns trechos para garantir os votos necessários, mas manteve o núcleo da reforma. A oposição peronista classificou a medida como um retrocesso que tende a precarizar o trabalho e favorecer o setor financeiro. Milei comemorou nas redes sociais.
México vive clima de tensão uma semana após morte de El Mencho
A morte do narcotraficante mais procurado do México, Nemesio Oseguera Cervantes, conhecido como El Mencho, líder do Cartel Jalisco Nueva Generación, após uma operação do Exército mexicano em Jalisco, colocou o país em alerta máximo. Em poucas horas, a reação do grupo criminoso se espalhou pelo país: bloqueios, incêndios e ataques levaram à suspensão de aulas em diversos Estados, ao cancelamento de voos e à recomendação para que a população permanecesse em casa. Destinos turísticos como Puerto Vallarta e Guadalajara tiveram aeroportos fortemente vigiados, enquanto turistas ficaram retidos sem transporte.
A escalada de violência lembrou episódios anteriores, como os cercos a Culiacán após tentativas de captura de Ovidio Guzmán, mostrando o poder de fogo de um cartel quando sua cúpula é atingida. Alertas de segurança foram emitidos por vários países, com destaque para os Estados Unidos, que pediram a seus cidadãos que buscassem abrigo em cidades turísticas e áreas afetadas.
O governo mexicano tentou conter o pânico, embora reconheça a coordenação emergencial entre os Estados. O Cartel Jalisco Nueva Generación opera globalmente, com presença em dezenas de países, por isso o impacto da queda de seu líder pode ganhar grandes proporções.
Washington afirmou ter colaborado com informações de inteligência, e autoridades americanas elogiaram as forças de segurança mexicanas pela operação que eliminou o criminoso mais procurado do país. Enquanto isso, a presidente Claudia Sheinbaum tenta manter a força do Estado contra novas possíveis repercussões.
Paquistão se declara em guerra aberta com o Afeganistão
O Paquistão realizou nesta sexta-feira ataques diretos contra alvos militares do regime taleban no Afeganistão, rompendo uma frágil trégua que até então evitava um confronto aberto entre os dois países. Pela primeira vez, os bombardeios paquistaneses atingiram posições do governo taleban em Kabul.
O ministro da Defesa paquistanês declarou “guerra aberta”, enquanto os taleban disseram estar dispostos ao diálogo.
A escalada é o episódio mais grave desde o retorno dos taleban ao poder em 2021 e inclui bombardeios aéreos, ações terrestres e ataques com drones ao longo da fronteira de 2,6 km entre os dois países. Islamabad afirma ter atingido depósitos de armas e posições militares, enquanto o governo taleban acusa o Paquistão de ataques “covardes” e diz ter respondido. O primeiro-ministro paquistanês, Muhammad Shehbaz Sharif, advertiu que o país — potência nuclear desde 1998 — tem plena capacidade de responder a qualquer “ambição agressiva”.
No centro do conflito está a atuação do Tehreek-e-Taliban Pakistan (TTP), milícia que o Paquistão acusa de operar a partir do território afegão com tolerância do regime taleban, que nega a afirmação e alega que Islamabad usa o tema para mascarar seus próprios problemas de segurança interna. A tensão se agravou após ataques aéreos recentes contra supostos acampamentos do TTP, que, segundo Cabul, causaram mortes de civis. Diante do risco de regionalização do conflito, Rússia, China e Irã pediram contenção e se ofereceram para mediar um processo de diálogo entre os dois governos.
Alerta segue alto para possível ação americana no Irã
Os Estados Unidos elevaram o nível de alerta nesta semana diante do risco de um conflito com o Irã e autorizaram a saída de funcionários da embaixada em Jerusalém, Israel. A recomendação do embaixador para que a retirada ocorra enquanto ainda há voos comerciais provocou um efeito cascata: Polônia, China, Reino Unido, França, Alemanha, Finlândia e Índia emitiram alertas a seus cidadãos para evitar viagens ou deixar Israel, Líbano e o próprio Irã. Companhias aéreas começaram a suspender rotas para Tel-Aviv, enquanto embaixadas orientaram seus nacionais a reforçar medidas de segurança.
A tensão foi alimentada por declarações do presidente Donald Trump, que voltou a ameaçar o uso da força se Teerã não assumir compromisso claro de não desenvolver armas nucleares. O secretário de Estado americano, Marco Rubio, viaja a Israel para se reunir com Binyamin Netanyahu e discutir as negociações indiretas com o Irã.
Apesar de contatos diplomáticos recentes, que tiveram poucos avanços, Washington reforçou de forma inédita em duas décadas sua presença militar no Oriente Médio, com a chegada do porta-aviões USS Gerald R. Ford e o deslocamento de caças F-22 e aviões de apoio para bases em Israel.
Autoridades iranianas alertaram que qualquer ataque tornará Israel e bases americanas na região alvos imediatos, enquanto as Forças de Defesa de Israel afirmaram estar em alerta máximo para defender o país.





