Entre guerra e economia: o Irã e o desgaste da popularidade de Trump
Em meio a falhas estratégicas no conflito, presidente americano vê aprovação cair antes das eleições de meio de mandato
Por Fernanda Simas
A guerra no Irã completou dois meses e ainda parece distante de chegar ao fim, apesar dos impactos inflacionários sentidos em diferentes partes do mundo. Ao longo desses mais de 60 dias, algo que tem ficado claro é o desgaste da imagem do presidente Donald Trump.
“Já havia uma desconfiança muito forte externamente com relação à posição de Trump na questão das tarifas”, explica Denilde Holzhacker, especialista em Estados Unidos e professora de relações internacionais da ESPM-SP. “A decisão unilateral de fazer uma ação no Irã, e ainda pressionar os aliados, diminui, com certeza, sua capacidade de liderança”.
A popularidade do presidente americano tem caído, mesmo entre sua base MAGA (Make America Great Again - Faça a América Grande de novo), justamente em razão da guerra: pesquisas mostram que apenas 34% da população apoia a ofensiva. Uma das principais bandeiras do republicano na campanha foi não envolver o país em guerras – principalmente aquelas distantes do território que Washington considera ser sua área de influência, a América Latina.
Em entrevista à Carta Global, a professora Holzhacker explica o impacto da perda de popularidade faltando pouco mais de 6 meses para as eleições de meio de mandato nos EUA, que definirão se os republicanos continuam com maioria no Congresso ou não. Enquanto a administração Trump se prepara para um bloqueio prolongado do Estreito de Ormuz e avalia novas opções militares para pressionar o regime dos Aiatolás, candidatos republicanos ao Congresso tentam se desvincular do presidente.
Além da pressão causada pelos fracassos estratégicos no Irã, numa guerra que já custou US$ 25 bilhões aos EUA, Trump vinha enfrentando, internamente, críticas e protestos pela condução da política migratória. A violência do ICE (polícia migratória americana) levou à morte de dois cidadãos americanos no começo do ano e deu início a uma série de protestos.
Abaixo, trechos da entrevista com Holzhacker:
Trump perdeu credibilidade interna e externamente com a guerra no Irã?
Sim, perdeu. Já havia uma desconfiança muito forte externamente com relação à posição de Trump na questão das tarifas. A decisão unilateral de fazer uma ação no Irã, além de pressionar os aliados, diminui com certeza sua capacidade de liderança. Do ponto de vista interno, o impacto é grande. A maioria da população é contrária à guerra, entende que os custos da guerra, tanto de mobilização de tropas, quanto de recursos utilizados, desvia (o governo) do problema visto como central que é a questão econômica, e traz impactos negativos com o aumento do preço do petróleo afetando a vida diária das pessoas. Esse conjunto amplia as visões negativas sobre o governo Trump.
Mas, na verdade, ele (Trump) acaba usando isso, para mostrar que os EUA estão agindo de acordo com interesses globais, mas, de novo, sem o apoio de seus aliados. Ele utiliza a narrativa da guerra para construir uma percepção de que novamente os americanos estão agindo como principal ator, tendo de usar recursos próprios para conseguir uma ação internacional.
Há um misto de uso dessa narrativa interna para, de alguma forma, conseguir controlar os efeitos negativos que a guerra acaba tendo na opinião pública americana.
Antigos apoiadores da base MAGA criticam a entrada dos EUA na guerra e começam a se distanciar do presidente. Qual pode ser o impacto desse movimento para Trump e para os republicanos?
O grande medo é que a guerra, principalmente agora com grupos mais críticos dentro do grupo MAGA, possa levar à perda da eleição de meio de mandato. Esse risco tem sido apontado. Mas quando você olha as pesquisas, o país continua muito dividido, majoritariamente os democratas tendem a ter uma visão mais crítica, enquanto os republicanos ainda demonstram maior apoio (ao presidente). Mas o efeito econômico do conflito, este sim tem sido um efeito importante.
Agora, para os republicanos, pode ser uma forma de outros grupos internamente no partido ganharem força frente ao movimento MAGA. Esse é outro risco para Trump, que tem dominado toda a lógica da estrutura partidária.
As próprias medidas migratórias de Trump começam a ser questionadas e, segundo pesquisas, desaprovadas por parte maior da população. Algo pode mudar na condução dessa política?
O efeito da perda do eleitor hispânico em função da violência do ICE, das ações que têm sido tomadas contra os imigrantes, o medo gerado, tudo isso é um efeito importante para o próprio quadro eleitoral e para a própria posição do Partido Republicano. Trump tentou dar uma visão menos de rompimento, em termos de política migratória, mas quando você olha do ponto de vista dos dados, das estratégias, elas continuam as mesmas.
O que a gente vê nas últimas semanas, principalmente após o início da guerra, é uma pressão para que não tenha tanto espetáculo (nas abordagens policiais), que as ações do ICE não sejam de confrontação. O ICE deixou de atuar de forma mais direta em alguns Estados democratas, que estavam sendo mais pressionados. A decisão de colocar o ICE para assumir o controle da segurança dos aeroportos também gerou uma série de pressões.
Então, o que se vê não é uma mudança na política, mas algumas estratégias sendo mais cautelosas para evitar essa percepção da violência que é a implementação da política migratória. Mas a percepção de que é preciso continuar sendo duro com a imigração, não só continua no discurso do Trump, como no de todos os candidatos que estão ligados a essa agenda. Mudaram algumas táticas, mas o objetivo, e a estratégia, continuam os mesmos.
Quanto isso pode fazer a diferença para as eleições de meio de mandato?
A questão do voto latino acho que é o principal ponto da questão migratória. Em algumas regiões, também pela forma como a migração foi colocada, gerou uma mobilização anti-Trump muito forte, principalmente entre os jovens. E acho que o terceiro ponto é, em algumas regiões, como principalmente no sul, que tem uma dependência grande da mão de obra migrante para alguns setores, o impacto econômico tem sido um fator importante de visão contrária à política migratória.
Trump sempre se gabou de ser o presidente que negocia com todo mundo. Como fica a imagem dele no atual cenário?
Se tem uma coisa com a qual Trump não se preocupa é a coerência. Ele vai continuar dizendo que é (um bom negociador) mesmo não tendo bons resultados. Isso ele fez a vida toda, desde o período de empresário, mesmo quando perdia e tinha fracassos nos seus negócios, ele se declarava vitorioso. Acho que isso vai continuar acontecendo e vai ser explorado pelos adversários.
Os republicanos que são mais moderados tentam se afastar e os democratas vão usar isso largamente na campanha. Mas acho que isso vai ser parte da mística que o Trump vai criar e da narrativa que vai criar depois de passar dessa fase.
Como os democratas estão agindo a partir desse contexto e pensando nas eleições de meio de mandato?
Existem também fortes críticas com relação aos democratas. A última eleição em Nova York demonstrou que explorar o cotidiano, explorar os impactos negativos na economia, na vida da população, foi essencial para que eles ganhassem. Ainda existem grupos muito fortes, mais progressistas dentro do partido, que entendem que é preciso fazer um embate do ponto de vista das grandes questões de forma mais direta.
Há uma dificuldade do partido em chegar a lideranças fortes, com apelo nacional. Alguns testes estão sendo feitos e nomes passam a circular, mas não com força nacional. Mesmo que eles consigam maioria na Câmara dos Deputados e revertam o cenário do Senado, ainda está muito relacionada com o jogo político local e a percepção de grupos muito específicos.
É preciso lembrar que a eleição de meio de mandato tende a mobilizar menos. Com a perda crescente do voto hispânico, isso afeta muito mais os republicanos do que os democratas.
Aqui temos que olhar o quadro eleitoral das disputas nos distritos. Os que são majoritariamente democratas, vão continuar e os que são majoritariamente republicanos, também.
A eleição de meio de mandato é um sinalizador para os próximos dois anos de mandato. Vários fatores locais acabam sendo, também, importantes para a eleição de melo mandato.
O episódio dessa semana do podcast El Hilo traz uma entrevista com Julián Kanarek, consultor político e autor do livro Omitir Intro. O autor aborda as transformações digitais e seus impactos nas eleições ao redor do mundo e explica um pouco da atual crise democrática que vivemos, com líderes governando pelas redes sociais e deixando a política das ruas para trás.
Trump é vítima de novo ataque nos EUA
O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, foi retirado às pressas do Jantar dos Correspondentes na Casa Branca após disparos no hotel onde ocorria o evento, em Washington, no sábado passado. Um suspeito armado foi detido após tentar romper a segurança, e o encontro foi imediatamente cancelado.
Cole Tomas Allen, professor de 31 anos, foi acusado de tentativa de assassinato do presidente e outros crimes. No dia do ataque, ele portava diversas armas. Segundo a promotoria, o atentado foi organizado semanas antes.
Apesar do susto, Trump não ficou ferido e ninguém foi atingido, com exceção de um policial protegido por colete à prova de balas. O Serviço Secreto agiu rapidamente para retirar autoridades e convidados. O FBI investiga possíveis falhas no esquema de segurança.
O episódio interrompeu uma das principais tradições políticas e midiáticas dos EUA, normalmente marcada por tom descontraído, e reacendeu preocupações sobre segurança em eventos públicos de alto nível no país.
Ouro usado na Casa da Moeda dos EUA vem de grupo criminoso colombiano
A reportagem do jornal americano The New York Times revelou que a mineração ilegal de ouro ligada ao Clã do Golfo ocorre dentro — ou praticamente dentro — de uma base militar na Colômbia. A mina La Mandinga opera a poucos metros (e até dentro do perímetro) do batalhão, sem controle efetivo do Estado.
O grupo cobra taxas dos mineradores e usa a atividade para financiar violência, enquanto o ouro é “legalizado” por meio de documentação fraudulenta e entra no mercado internacional. Parte desse metal chega aos EUA, é refinada e passa a ser considerada produto americano, inclusive indo parar na Casa da Moeda.
O caso expõe falhas graves de fiscalização, possível omissão estatal e a sofisticação do esquema: a mineração ilegal já rivaliza com o narcotráfico como principal fonte de financiamento de grupos armados na Colômbia, além de ter impactos ambientais severos e conexões com conflitos globais.
Governos progressistas se reúnem na Espanha e falam sobre imigração
A cúpula progressista em Barcelona reuniu líderes como o espanhol Pedro Sánchez, o colombiano Gustavo Petro, a mexicana Claudia Sheinbaum e o brasileiro Luiz Inácio Lula da Silva em um esforço para reorganizar e fortalecer o campo progressista diante do avanço da direita global.
Sánchez adotou um tom combativo, afirmando que a direita “faz barulho porque sabe que seu tempo está acabando” e defendendo políticas pró-imigração. Lula destacou que a extrema direita cresce explorando frustrações sociais com desinformação, especialmente contra minorias.
O encontro — que reuniu milhares de participantes — girou em torno de temas como combate à desigualdade, regulação das redes sociais, defesa da democracia e enfrentamento ao extremismo. Apesar do discurso de mobilização, o clima foi de “otimismo cauteloso”, impulsionado por recentes reveses da ultradireita em alguns países europeus, como a Hungria, que viu Victor Orbán deixar o poder após 16 anos – um governo que era considerado o berço da extrema direita no mundo.
Colômbia e Venezuela fecham acordos de cooperação militar
O presidente da Colômbia, Gustavo Petro, se tornou o primeiro líder a visitar a Venezuela após a captura de Nicolás Maduro e fechou acordos de cooperação militar com o governo de Delcy Rodríguez. O encontro marca um novo momento de reaproximação entre os dois países, num momento em que a Colômbia busca uma recuperação econômica.
A prioridade da reunião foi a cooperação em segurança, especialmente no combate a grupos armados e economias ilegais na fronteira, uma das regiões mais instáveis da América do Sul. Ambos os governos anunciaram planos conjuntos de inteligência e operações, em meio à escalada de violência em áreas como o Catatumbo, onde disputas entre guerrilhas e grupos armados já provocaram deslocamentos massivos e agravaram a crise humanitária.
Além da segurança, a agenda tratou de integração energética e reativação econômica, com potencial para interconexão de gás e eletricidade entre os dois países. O encontro simboliza um novo capítulo nas relações bilaterais e na reinserção da Venezuela no cenário internacional, ainda que em um contexto político incerto e com o futuro da transição no país longe de uma definição clara – com a oposição pedindo eleições e o governo Delcy tentando expurgar a linha mais próxima de Maduro do poder.
Tensão entre EUA e México aumenta após Washington acusar governo de Sinaloa de envolvimento com cartel
O partido governista mexicano Morena volta a enfrentar acusações de vínculos com o narcotráfico após o Departamento de Justiça dos Estados Unidos afirmar que o governador de Sinaloa, Rubén Rocha Moya, tem envolvimento com o Cartel de Sinaloa.
As denúncias retomam questionamentos antigos sobre a influência do crime organizado em eleições regionais, especialmente no pleito de 2021, marcado por violência, intimidação de eleitores e assassinatos de candidatos. Na época, a oposição acusou cartéis — como o de Sinaloa — de favorecer candidaturas governistas, mas a Justiça eleitoral validou os resultados.
Agora, com a acusação nos EUA envolvendo Rocha e aliados, o tema volta ao centro do debate e pode impactar o cenário político rumo às eleições de 2027, especialmente em regiões com forte presença do crime organizado.





