Protestos, migração e poder: Trump entra em 2º ano testando instituições
Presidente dos EUA endurece política migratória como parte de seu projeto político enquanto tenta conter baixa popularidade
Por Fernanda Simas
Donald Trump inicia seu segundo ano de mandato com Estados tomados por protestos contra sua política migratória, que colocou agentes de fronteiras nas ruas de diferentes cidades e levou à morte de dois americanos, além do medo que espalhou em diversas regiões, onde as pessoas saem às ruas com seu passaporte pendurado no pescoço. Para muitos analistas, as detenções de imigrantes fazem parte de uma arquitetura para levar tropas federais a Estados democratas meses antes das eleições de meio de mandato.
O fortalecimento da polícia de fronteira, o ICE, vem ocorrendo há mais de ano. De fato, desde o primeiro mandato, Trump fala sobre suas intenções na presidência. O que mudou, e é reforçado por estudiosos americanos a todo momento, é o sistema de freios ao presidente. Se antes, mesmo integrantes de seu partido atuavam como uma espécie de contrapreso a Trump, agora o republicano tem o caminho aberto.
Neste momento, apenas um ponto pode mudar o rumo das determinações de Trump, em especial a questão migratória: o apoio popular. Se os democratas saem com maioria no Congresso nas eleições de meio de mandato, o caminho livre do presidente parece ganhar alguns obstáculos. Do contrário, devemos continuar vendo o enredo do primeiro ano de governo do segundo mandato de Trump.
As recentes notícias que vemos desde Minneapolis - inclusive com as mortes dos americanos Alex Pretti e Renee Good - são um resumo deste período, das intenções e ações do presidente americano. Internacionalmente, Trump tem agido da mesma forma e coloca em xeque as antigas alianças dos EUA, um dos fatores determinantes para tornar o país a potência que é hoje.
Em uma conversa, o professor de relações internacionais da ESPM-SP Gunther Rudzit fala da fragilização da democracia americana ao longo do primeiro ano deste segundo mandato de Trump e como Cuba e Nicarágua podem ser os próximos alvos do americano dentro da sua lógica de Doutrina Monroe, de América para os americanos. Confira:
Quais os principais impactos internos, nos EUA, de um ano de Trump no poder?
A fragilização da democracia americana com um hiperpresidencialismo, beirando quase o autoritarismo. O presidente Trump usa ordens executivas e está atropelando o Congresso, a Constituição americana, e provocando uma polarização ainda maior da sociedade americana. Em termos de política americana, temos principalmente a fragilização das instituições americanas.
O desmonte, quando falamos de investimento em universidades e programas americanos, pode ser revertido?
Esse é um ponto importantíssimo, ainda não há uma clareza do que deve acontecer. Os EUA eram o grande atrator de cérebros do mundo, onde metade dos doutorandos dos EUA era de estrangeiros e a maior parte ficava no país. Com todas essas políticas, isso tende a mudar. Portanto, a liderança americana, inclusive no setor tecnológico, pode ser influenciada.
Os investimentos nas universidades americanas se dão, a grande maioria, por fundos de ex-alunos que retornam, em agradecimento ao que conseguiram por meio dessas universidades. Os fundos do governo federal se impondo sobre muitas universidades, porque não são todas que conseguem lutar contra como Harvard, vai levar a um enfraquecimento do capital humano que as universidades atraem.
Por que os democratas parecem estar mais em silêncio nos últimos meses?
Ao que tudo indica, muitos democratas estão até chocados com o que está acontecendo. Por isso, o governador da Califórnia, Gavin Newson, tem se destacado, ele tem verbalizado de forma muito dura todos os absurdos que o presidente Donald Trump tem cometido, a ameaça que Trump representa para a democracia americana. Tem se destacado como uma das pouquíssimas vozes democratas que tem conseguido se colocar.
Quando olhamos para a política migratória, os abusos de poder são flagrantes. A tendência é seguir assim? O ICE deve ter ainda mais carta branca?
Sim, as ações da ICE devem continuar com todos os abusos flagrantes. Esse é um ponto fundamental para unir a base MAGA do presidente Trump, que vinha se dispersando. E esse é um dos temas que mais atraem os eleitores não tão fieis assim. Acho que a tendência é essa, até mesmo para provocar reações e ele, Trump, conseguir construir narrativas de que quem são os agitadores radicais são os democratas, justificando o envio de tropas militares e federais, como vem fazendo em Minnesota.
Olhando para a política externa, quais os principais impactos desses 12 meses?
Os EUA estão perdendo seus aliados e, por isso mesmo, não dá mais para falar no Ocidente como nós dizíamos. Ocidente sendo EUA, Canadá, Europa, Japão, Coreia do Sul e Austrália.
Todas as posturas de Trump fizeram com que as relações transatlânticas, e até com o Canadá, deixassem de ser relações de aliados. Para mim, isso é o mais importante, Ocidente como conhecíamos acabou. A partir de agora, temos que falar da Europa e seus aliados democráticos e EUA.
Em médio e longo prazos, os EUA tendem a sair menores ou mais fracos dessa nova ordem mundial?
Em termos militares, os EUA continuam sendo a maior potência militar do planeta. As ações na Venezuela deixaram isso claro.
Do ponto de vista econômico, essas ações vão enfraquecer a economia americana. O próprio dólar vem se enfraquecendo frente a praticamente todas as moedas no mundo.
Do ponto de vista da liderança moral, definitivamente os EUA deixaram de sê-la. O grande problema é que não se trata de uma nova ordem mundial, e sim de uma nova lei da selva exacerbada.
Há tempos, o senhor fala da “lei da selva”. Isso se consolidou ao longo do segundo mandato de Trump. Deve continuar escalando ou essa crise com a Europa pode significar um novo momento?
A lei da selva tende a escalar, sim, e por isso o discurso do primeiro-ministro canadense, Mark Carney, em Davos semana passada foi tão importante. Ele deixou claro: não estamos num período de transição, estamos num período de ruptura.
Ou seja, para quem acha que a velha ordem liberal internacional baseada no multilateralismo e no direito internacional pode ser remendada, não vai. Qual vai ser a nova ordem internacional? Ela está em construção, ainda nem sabemos direito quais regras vão existir.
Todos os acordos que não forem rompidos por Trump continuarão existindo, mas as potências vão usar aquilo que lhes interessa e não usar o que não lhes interessa. O Conselho de Segurança da ONU vai continuar existindo e vai ser usado como palco de discussões narrativas, vetos, buscando alguma forma de legitimidade, mas não vai ter ampliação.
Muitos chamam a China de grande estabilizador da ordem, mas também não é, vem usando o direito internacional como lhe interessa. Quando a China começa a tomar territórios, principalmente ilhas de países vizinhos, no Mar do Sul da China, apesar de ser signatária da Carta dos Mares da ONU, ela está desrespeitando isso, portanto também é uma forma de uso seletivo do direito e da ordem internacional.
Como avalia a reação dos principais atores globais nas crises provocadas por Trump?
(Vladimir) Putin está adorando porque consegue, principalmente com o que Trump fez na Venezuela e vem falando da Groenlândia, justificar suas ações na Ucrânia. Pequim, apesar de criticar, também está adorando porque consegue justificar sua tentativa de reanexar, na visão chinesa, Taiwan.
Os europeus finalmente entenderam que tentar apaziguar não dá o resultado que eles esperam. Essa crise da Groenlândia deixou isso bem claro e o discurso do presidente (ucraniano) Volodmir Zelenski é muito forte nessa direção, dizendo que os europeus precisam reagir.
Aqueles países que dependem muito dos EUA precisam buscar alternativas. Foi o que o Canadá fez. O premiê foi para Davos saindo de Pequim, onde assinou uma parceria estratégica, principalmente em comércio, tecnologia, meio ambiente e energia renovável. Deixou claro a mudança de aproximação da China. Canadá e México são os países que mais dependem dos EUA hoje e, portanto, precisam encontrar alternativas rapidamente.
O senhor acredita que acordos como UE-Mercosul podem ser um contrapeso a esse modelo de Trump?
Não acho que seja um contraponto, até porque se olharmos bem para o que foi assinado, as salvaguardas que os europeus impuseram, não é (um acordo de) livre comércio. Os europeus, em sua grande maioria, não são pró livre comércio, principalmente em setores agrícolas.
Os europeus foram a principal barreira contra a concretização da rodada Doha de liberação do comércio agrícola. Além disso, ainda precisamos esperar para ver se a Justiça europeia vai liberar a implementação deste acordo.
Se o governo brasileiro acha que terá o apoio dos governos europeus para regular a ação das Big Techs aqui no Brasil vai acabar se dando mal porque os europeus estão defendendo o seu interesse e não um interesse coletivo.
Por fim, ao que devemos ficar atentos nos próximos meses?
O primeiro ponto é que tudo é possível, até o que a gente considerava impossível pode acontecer, até a ameaça de anexação da Groenlândia. De imediato, o que a gente pode prestar atenção é o andamento da negociação bilateral para o cessar-fogo e, se possível, um acordo de paz, na Ucrânia. Mas sou um pouco cético a isso. Putin não deve abrir mão de anexar territórios que a Rússia não controla hoje e a Ucrânia não vai aceitar isso.
Temos de olhar, também, para uma possível ação militar dos EUA contra Cuba e Nicarágua. Porque a National Security Strategy do governo Trump do ano passado deixa claro que o seu governo não vai aceitar a influência de potências extra regionais aqui na região, e Cuba e Nicarágua são os dois mais próximos de China e Rússia depois da Venezuela.
O podcast El Hilo gravou o episódio “Estados Unidos y la política del enemigo interno” para tratar dos abusos cometidos pelos agentes do ICE. Em uma conversa com Jonathan Blitzer, jornalista especialista em imigração e política, o programa traz os diferentes aspectos políticos da estratégia de Trump em chamar os imigrantes de terroristas e faz um histórico das mudanças no tratamento dado pelo governo aos agentes do ICE. Vale conferir.
Costa Rica: vitória da governista consolida projeto de concentração de poder
A vitória em primeiro turno da governista Laura Fernández nas eleições presidenciais da Costa Rica consolidou o projeto político do presidente Rodrigo Chaves, marcando o início de um novo ciclo com menor peso dos freios institucionais. O Partido Pueblo Soberano obteve maioria confortável no Parlamento, o que garante governabilidade quase sem oposição - foram 31 das 57 cadeiras do Congresso.
No entanto, o governismo não conseguiu os 40 deputados necessários para reformar a Constituição e permitir a reeleição presidencial. A eleição do domingo registrou alta participação, cerca de 60%, e intensificou o debate sobre os limites do poder em uma democracia historicamente estável.
Em seu primeiro discurso como presidenta eleita, Fernández celebrou o que chamou de “continuidade da mudança” e reivindicou um mandato para “resgatar e aperfeiçoar as instituições e devolvê-las ao povo soberano”. Ela prometeu respeito ao Estado de direito e rejeitou qualquer deriva autoritária, mas, ao mesmo tempo, lançou duras críticas à oposição e à imprensa, um ator que tem sido alvo frequente dos ataques do presidente Chaves durante seu mandato.
Venezuela: Delcy Rodríguez fala em anistiar presos políticos e fechar centro de tortura
A Venezuela vive um momento político acelerado desde 3 de janeiro, marcado por intervenção militar, rearranjos no chavismo e sinais de abertura. O principal ponto de inflexão foi a concessão de uma anistia geral aos presos políticos, considerada histórica e inédita por mediadores, rompendo com antigas tentativas fracassadas.
A medida enfraqueceu o clima de medo que tomava as ruas do país, reativou protestos, mobilizou estudantes e trouxe lideranças opositoras de volta à cena pública, em um contexto de forte atenção internacional e incerteza sobre os próximos passos do governo chavista.
A libertação geral de presos políticos já havia sido discutida em ao menos dois processos de diálogo anteriores, mas nunca se concretizou: eram fórmulas limitadas, centradas em libertações pontuais que não extinguiam os processos judiciais. Desta vez, parece ser diferente.
Negociadores e mediadores celebraram a medida, que classificam como histórica.
Cuba em crise
Cuba está passando por um de seus piores momentos econômicos, com queda nas receitas vindas do turismo - que diminui de forma constante desde a pandemia de covid-19 -, o cerco cada vez mais forte do governo de Donald Trump e a queda de Nicolás Maduro na Venezuela. Com a mudança no regime venezuelano, o petróleo deixou de ser enviado à ilha.
Para piorar, o México também suspendeu o envio de petróleo a Cuba. O governo da presidente Claudia Sheinbaum afirmou, no entanto, que enviará nesta semana ajuda humanitária, com alimentos e produtos básicos.
A suspensão dos envios de petróleo ocorre após um decreto do governo Trump que impõe tarifas a países que forneçam petróleo à ilha. O México, que envia petróleo a Cuba desde 1993, aumentou os volumes a partir de 2024 e chegou a fornecer cerca de 17 mil barris diários, o equivalente a 20% das necessidades cubanas.
Sheinbaum nega ter tratado do tema diretamente com Trump, mas afirma que negociações diplomáticas seguem em curso. A presidente alerta que a medida dos EUA pode aprofundar a crise econômica e humanitária em Cuba.






