Por Fernanda Simas
Antes do primeiro turno da eleição presidencial brasileira, uma das preocupações no Itamaraty e de alas do governo era garantir que uma eventual vitória do presidente Luiz Inácio Lula da Silva fosse reconhecida rapidamente por lideranças internacionais, principalmente na América Latina, para evitar a narrativa de fraude eleitoral. Isso se consolidou, inclusive com o rápido reconhecimento por parte de governos da direita e da extrema direita, mas a trama que envolveu a fuga de Flávio Bolsonaro do País pode trazer consequências para as relações diplomáticas do Brasil com Argentina e Estados Unidos.
“O governo (Donald) Trump fez uma verdadeira aposta para entender a reação dentro do Brasil”, afirma o professor de Relações Internacionais da ESPM Paulo Ramirez, sobre o asilo concedido ao senador brasileiro. “Agora, isso pode impactar as eleições (de meio de mandato nos EUA), porque começa a existir um movimento interno de que não faz sentido o pagamento de impostos pelos EUA para sustentar o Flávio, a imagem que começa a ficar é a de um país que acoberta e atrai foragidos, criminosos comuns, que cometem fraudes econômicas”, avalia.
Enquanto Trump divulgava mensagens contraditórias, ora no sentido de se afastar do clã Bolsonaro, dizendo que deu asilo ao Flávio, mas não vai se envolver com o assunto, ora questionando o processo eleitoral brasileiro, denúncias sobre a participação ativa do assessor do presidente Jason Miller no processo de fuga surgiram. Segundo os jornais The New York Times e The Wall Street Journal, Miller teria fretado o avião para transportar o senador brasileiro da Argentina aos EUA.
No sábado (31), o secretário de Estado norte-americano, Marco Rubio, precisou dar uma declaração afirmando que o país não interferiu diretamente no processo. “Não facilitamos nada. Soubemos que ele chegou aos EUA, ele já tinha um visto garantido e o presidente tomou a decisão de permitir que ele entrasse, mas não estávamos envolvidos em nenhum dos arranjos para ele sair do País”, afirmou.
As eleições de meio de mandato desta terça-feira nos EUA podem deixar o Partido Republicano sem maioria na Câmara e, também, no Senado, o que dificultaria os próximos dois anos de governo de Trump e poderia impactar o cenário para a eleição presidencial de 2028. As tarifas impostas por Washington ao Brasil afetaram o comércio entre os dois países, mas têm sido mais impactantes para a questão inflacionária norte-americana. Entre janeiro e setembro, o comércio entre os dois países alcançou US$ 59,2 bilhões, uma queda de 6,8% em relação ao mesmo período de 2025.
A movimentação norte-americana com relação ao Brasil parte muito mais de Rubio, como analistas sempre frisam, do que do próprio presidente. Por isso, o próprio governo brasileiro, ao longo dos processos de negociação com os EUA, tem evitado dirigir críticas diretas a Trump.
Envolvimento argentino
Na ponta inicial dessa trama está a ida de Flávio Bolsonaro até a Argentina. Desde a madrugada de segunda para terça-feira (26 para 27 de outubro), a imprensa argentina noticia e cobra o governo de Javier Milei sobre se houve alguma negligência ou omissão deliberada que tenha permitido a passagem do senador brasileiro. As versões sobre a saída de Flávio divergem.
Opositores argentinos afirmam que houve envolvimento direto do governo Milei e pedem esclarecimentos sobre como ocorreu o ingresso de Flávio em território argentino, um possível crime de tráfico de pessoas pela fronteira, com o agravante de uma possível participação de funcionários argentinos, como, inclusive, forças de segurança. Na terça-feira, o chefe de segurança da Argentina, Santiago Caputo, estava em Puerto Iguazú.
A deputada opositora – antes governista – Marcela Pagano fala que os atos poderiam até “comprometer a soberania do Estado argentino sobre suas fronteiras e o cumprimento de suas obrigações de cooperação penal com um Estado parte do Mercosul”.
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De acordo com o programa Fantástico, até um ex-agente da Mossad – o serviço de inteligência israelense – é investigado por envolvimento na facilitação da saída de Flávio do País. O israelense teria viajado em uma das vans da Dallas Turismo que cruzaram a fronteira entre o Brasil e a Argentina minutos antes da suposta van onde estaria o senador. Além dele, estaria junto o advogado Roberto Jorge Alexandre, que atuou na defesa de Jair Bolsonaro.
De acordo com os registros migratórios argentinos, Flávio Bolsonaro aparece em três registros de entrada no território argentino: dois com documentos brasileiros – que foram anulados – e um com o passaporte italiano.
Outra versão investigada é a de que Flávio tenha saído do Brasil em um avião Cessna Citation Excel ligado ao advogado e sócio Willer Tomaz, que teria feito a rota Brasília-Buenos Aires.
O avião que levou a família Bolsonaro a Miami era uma aeronave da Baires Fly, que ficou parada mais de 24 horas em Buenos Aires e depois foi até Puerto Iguazú, na fronteira com o Brasil. A empresa havia solicitado os trâmites de Aduana e Migração para quatro passageiros com destino aos EUA. Informações iniciais de fontes argentinas sugeriram que a aeronave não decolou porque “alguns passageiros estavam faltando”.
A Baires Fly pertence a Luis Grande e tem como grande rosto Sergio Mastropietro, recentemente processado no caso de corrupção e lavagem de dinheiro com medicamentos e insumos na Agência de Discapacitados (Andis). O voo até Miami teria custado cerca de US$ 140 mil, pagos por um operador nos EUA.
“É preciso entender como (Flávio) entrou, quem acobertou. Qualquer pessoa que cruza a fronteira precisa mostrar os documentos”, diz Ramirez, ressaltando, no entanto, que o impacto maior para as relações entre Brasil e Argentina deve vir do não reconhecimento de Milei da vitória de Lula. Até agora, a Casa Rosada se limitou a dizer, por meio do porta-voz Adrián Ravier, que registrou o resultado da votação de 25 de outubro.
A Argentina é o terceiro maior parceiro comercial do Brasil, mas historicamente, o País tem sido o principal destino das exportações argentinas. Entre janeiro e setembro, as exportações brasileiras para a Argentina somaram US$ 11,5 bilhões e as importações brasileiras da Argentina, US$ 9,9 bilhões.
No ano que vem, a Argentina terá eleição presidencial e o presidente vem perdendo popularidade diante da má situação econômica e dos escândalos de corrupção.

O último episódio do Xadrez Verbal traz todos os impactos internacionais das eleições brasileiras, além de uma discussão sobre o futuro do Itamaraty e detalhes do posicionamento de líderes internacionais sobre a reeleição de Lula.

Eleições em Israel: Netanyahu perde maioria, partidos árabes avançam e oposição tem dificuldade em formar governo
As primeiras eleições legislativas de Israel desde os ataques terroristas do Hamas, em 7 de outubro de 2023, terminaram com um revés para o primeiro-ministro Binyamin Netanyahu, mas sem uma definição sobre quem governará o país. Segundo os resultados definitivos divulgados na sexta-feira (30), o Likud – partido de Netanyahu – perdeu cinco cadeiras, passando de 32 para 27 deputados.
A coalizão governista, formada por partidos de direita, extrema direita e religiosos, conquistou apenas 53 das 120 cadeiras do Knesset, abaixo das 61 necessárias para formar maioria. Os outros 67 assentos ficaram divididos entre quatro partidos judaicos de oposição, com 48 deputados, e duas listas árabes, que somaram 19.
A eleição foi uma espécie de referendo sobre as políticas do governo Netanyahu desde o ataque de 2023, que expôs falhas na segurança israelense e desencadeou uma sequência de guerras e operações militares na região, especialmente na Faixa de Gaza e contra o Irã. Internacionalmente, existe uma cobrança de políticos opositores, sociedade civil e organizações humanitárias ao governo Bibi pelo genocídio em Gaza.
Durante a campanha eleitoral, o primeiro-ministro apostou no discurso de segurança nacional e na ameaça iraniana, apresentando sua permanência no poder como garantia de proteção ao país. Mas o resultado revelou uma sociedade marcada por profundas divisões políticas e pelo fortalecimento de posições nacionalistas, sobretudo entre os jovens.
Pesquisas realizadas antes da votação indicavam que 74% dos israelenses de 18 a 22 anos se identificavam com posições que iam da centro-direita à direita radical, tendência associada tanto a mudanças demográficas quanto à experiência de uma geração que cresceu em meio a conflitos e sem perspectivas concretas de paz com os palestinos.
Outro resultado significativo da votação foi o avanço histórico dos partidos árabes, que praticamente dobraram sua representação, passando de dez para 19 deputados. A Lista Conjunta conquistou 12 cadeiras, enquanto o partido Ra’am obteve outras sete. O crescimento foi impulsionado por uma mobilização eleitoral sem precedentes entre os palestinos com cidadania israelense, que representam aproximadamente 20% da população do país.
A participação desse grupo pode ter se aproximado de 80%, contra 53,2% nas eleições de 2022. O movimento ocorreu em meio ao aumento das denúncias de discriminação e restrições à liberdade de expressão desde outubro de 2023. Antes da votação, as duas listas árabes chegaram a ser impedidas de concorrer pelo Comitê Eleitoral Central, decisão posteriormente revertida pelo Tribunal Supremo.
Impasse
Os partidos contrários ao governo Netanyahu somam 67 deputados, mas três das quatro legendas judaicas do bloco resistem a formar uma coalizão com representantes palestinos, por divergências ideológicas e questões relacionadas à segurança nacional. O líder da segunda maior força parlamentar, Gadi Eisenkot, cujo partido conquistou 21 cadeiras, enfrenta dificuldades para construir uma maioria.
Enquanto a direita oposicionista rejeita alianças com as listas árabes, a coalizão de esquerda Os Democratas defende sua participação nas negociações. Uma das alternativas discutidas é a formação de um governo com o Ra’am, que já integrou uma coalizão anti-Netanyahu entre 2021 e 2022, e o apoio parlamentar externo da Lista Conjunta.
Outra possibilidade em discussão é um governo de união nacional entre Netanyahu e Eisenkot, com alternância na chefia do Executivo. Também surgiram conversas sobre um eventual apoio de partidos ultraortodoxos à oposição, em meio às divergências sobre a obrigatoriedade do serviço militar para esse segmento da população.
A decisão sobre os próximos passos caberá ao presidente israelense, Isaac Herzog, que deverá consultar os partidos e indicar o candidato com maiores condições de formar uma maioria parlamentar. O escolhido terá, inicialmente, 28 dias, prorrogáveis por mais 14, para negociar uma coalizão.
Se as tentativas fracassarem, Israel poderá enfrentar novas eleições, repetindo um cenário de instabilidade que levou o país às urnas cinco vezes entre 2019 e 2022. Até a formação de um novo governo, Netanyahu permanece no cargo.
Mobilização estudantil derrota a direita nacionalista após anos de protestos na Sérvia
A Sérvia vive uma mudança política após a derrota do presidente Aleksandar Vučić e de seu Partido Progressista Sérvio (SNS), nacionalista e conservador, nas eleições legislativas do domingo passado (25 de outubro). A Lista Estudantil conquistou 141 das 250 cadeiras do Parlamento, garantindo maioria absoluta, contra 103 da coalizão governista.
O resultado interrompe o domínio parlamentar do grupo de Vučić e representa a vitória de um movimento que surgiu fora das estruturas partidárias tradicionais, após quase dois anos de manifestações contra a corrupção e o governo, que começaram após o desabamento de uma cobertura na estação ferroviária de Novi Sad, em novembro de 2024, quando 16 pessoas morreram. O caso se tornou símbolo das denúncias de negligência e corrupção no país.
Estudantes passaram a organizar bloqueios de ruas, ocupações universitárias e manifestações que reuniram centenas de milhares de pessoas. O movimento adotou uma estrutura descentralizada, com decisões tomadas em assembleias, e conseguiu ampliar seu apoio para além das universidades. Uma das estratégias decisivas para o resultado eleitoral foi levar a mobilização a pequenas cidades e áreas rurais, construindo uma rede nacional de apoio e aproximando o movimento de setores da população que não participavam dos protestos inicialmente.
A vitória da Lista Estudantil também foi resultado de uma estratégia eleitoral diferente da adotada pela oposição tradicional, desgastada após sucessivas derrotas. Os estudantes decidiram não disputar pessoalmente os cargos e selecionaram 250 candidatos entre professores, economistas, agricultores e outros representantes da sociedade civil. A campanha foi financiada principalmente por pequenas doações, que somaram cerca de € 2,5 milhões, e mobilizou cerca de 60 mil voluntários.
Mesmo diante de denúncias de intimidação e episódios de violência contra manifestantes, o movimento estudantil ampliou sua base social e conquistou a confiança de eleitores insatisfeitos com o governo. A transição política, porém, ainda enfrenta desafios: haverá repetição da votação em 50 seções eleitorais onde foram identificadas irregularidades, enquanto o país se prepara para eleições presidenciais em dezembro.
María Corina Machado volta à Venezuela com apoio dos EUA
A líder opositora venezuelana e vencedora do Prêmio Nobel da Paz, María Corina Machado, retornou à Venezuela no domingo passado (25), após dez meses fora do país e ao menos sete tentativas frustradas de regressar. Sua volta ao território venezuelano levou a uma grande mobilização popular, com milhares de apoiadores acompanhando a caravana realizada de Barquisimeto até Caracas, sem intervenção das forças de segurança.
O retorno de Corina Machado – que havia deixado o país justamente para receber o Nobel – foi viabilizado por negociações entre os Estados Unidos e o governo interino de Delcy Rodríguez, segundo o secretário de Estado norte-americano, Marco Rubio. Ele afirmou que Washington recebeu, semanas antes, garantias de que a opositora poderia voltar à Venezuela sem sofrer represálias.
Em sua primeira entrevista coletiva após o retorno, realizada na quinta-feira (29), Corina Machado afirmou que a transição democrática na Venezuela é irreversível e citou eleições presidenciais em 2027 como parte do cronograma que, segundo ela, está sendo elaborado pelo governo de Donald Trump. A opositora também defendeu a criação de uma comissão da verdade e mecanismos de justiça e reparação para as vítimas da repressão política.
Corina Machado anunciou que pretende percorrer o país, mobilizar assembleias populares e ampliar o registro eleitoral, incluindo milhões de venezuelanos que vivem no exterior. Embora não participe formalmente da mesa de negociação entre o chavismo e representantes da oposição, que ocorre com mediação dos EUA, ela afirmou estar disposta a dialogar com o governo para viabilizar uma transição.
Desde a intervenção militar norte-americana de 3 de janeiro, que resultou na captura de Nicolás Maduro e de sua mulher, Cilia Flores, o governo venezuelano funciona como uma espécie de protetorado dos EUA, Washington passou a negociar diretamente com Delcy Rodríguez, que assumiu o governo e aceitou concessões em áreas como petróleo, mineração e reformas institucionais.
Delcy tentou minimizar a mobilização popular iniciada com o retorno de Corina Machado, mas também passou a falar publicamente sobre a realização de eleições. A dirigente chavista condiciona a reconciliação política ao reconhecimento de responsabilidades por parte de Corina Machado de seu apoio às sanções internacionais contra a Venezuela.

Eleições legislativas nos EUA viram teste de fogo para Trump
As eleições legislativas de meio de mandato nos Estados Unidos ocorrem nesta terça-feira (3) e serão um teste decisivo para a força política de Donald Trump e o futuro do movimento MAGA (Make America Great Again). Em uma tentativa de mobilizar o eleitorado republicano, o presidente realizou uma maratona de 28 comícios, pedindo aos apoiadores que votem como se seu próprio nome estivesse nas urnas.
O esforço ocorre no momento em que os democratas aparecem oito pontos à frente dos republicanos nas pesquisas nacionais de intenção de voto para o Congresso e as projeções eleitorais apontarem a possibilidade de os republicanos perderem o controle da Câmara dos Representantes e enfrentarem uma disputa mais difícil do que a esperada no Senado.
O cenário resulta, em parte, da queda de popularidade de Trump, que está associada a uma combinação da guerra prolongada contra o Irã com as dificuldades econômicas, a política migratória e as denúncias de corrupção envolvendo integrantes do governo. Uma derrota republicana poderia limitar a capacidade do presidente de aprovar sua agenda mais extremista e abrir caminho para investigações parlamentares sobre sua administração.
Além disso, alguns analistas apontam que uma derrota nestas eleições colocaria à prova a influência de Trump sobre o Partido Republicano, cujos candidatos permaneceram amplamente alinhados ao presidente durante a campanha, mesmo diante do desgaste de sua imagem. O apoio a Trump entre eleitores republicanos caiu de 95% em fevereiro de 2025 para 67% em outubro de 2026, segundo dados do Pew Research Center.
Do outro lado, as eleições também são apontadas por analistas como um teste para os democratas, que apostaram em candidaturas de perfis diferentes para ampliar seu alcance eleitoral. Enquanto nomes como Abdul El-Sayed, em Michigan, representam uma ala mais progressista, outros candidatos buscam conquistar eleitores conservadores e de áreas rurais insatisfeitos com o governo.
A participação pode ser um fator importante: mais de 51 milhões de norte-americanos já haviam votado antecipadamente até o sábado (31). Ao todo, estarão em disputa as 435 cadeiras da Câmara, 35 das 100 vagas do Senado e milhares de cargos estaduais e locais.
O resultado das eleições será acompanhado em meio a novas ameaças de Trump de contestar a lisura do processo eleitoral – prática adotada pelo republicano desde, ao menos, as eleições de 2020, quando foi derrotado por Joe Biden –, o que eleva a preocupação com possíveis conflitos após a apuração.
Outro elemento marcante da campanha foi o peso da inteligência artificial e das grandes empresas de tecnologia. A construção de centros de dados provocou resistência em diferentes regiões do país por causa do consumo de energia e água e dos impactos sobre as comunidades. Ao mesmo tempo, Elon Musk voltou a investir pesadamente na política: segundo o jornal The New York Times, o empresário destinou pelo menos US$ 267 milhões ao apoio de candidatos republicanos. A eleição, portanto, também coloca em discussão a influência econômica e política das gigantes tecnológicas sobre o governo e o Congresso dos EUA.



